terça-feira, junho 27, 2006

Quebra

Mas que mais se pode passar entre nós dois, Albert?

Amos Oz, O Mesmo Mar


Não se trata de mim e de outro homem, nem de si e de outra mulher, nem de qualquer outra relação entre duas pessoas. É mesmo consigo.
Muito obrigada pelo seu presente, foi muito gentil lembrar-se de mim, eu qual Carmen Miranda com o colar tropical ao pescoço. Também eu lhe trouxe um presente, um creme hidratante para tratar a sua pele de bébé. Deus nos livre de magoar alguém.

Mas quem se importaria, diga lá Albert, se de uma vez por todas você não gemesse? Geme tanto, credo! Não há nada que não lhe doa! O amor dói-lhe, a indiferença dói-lhe, dormir demais dói-lhe, acordar cedo dói-lhe. Eu sei, quer que a mamã ponha penso rápido. Mas não há mais penso rápido, agora só injecção num grande hospital.

No grande hospital, má criação é curada com agulha, não há beijinhos. No grande hospital, paranóia dá direito a quarto almofadado, não há passeios de avião que o livrem. Enfim, como Albert é grande, se achar que a enfermeira não gosta de si, insulta-se a enfermeira, despede-se a enfermeira. Mas Albert não sai do hospital.

O que é que resta? Um copo de leite frio, gordura a mais, potência a menos, você e eu, os seus, os meus. Farta de cuidados com as palavras. Afinal de contas nós somos o que somos, nem parceiros nem família. Nem inimigos. Você sossegado e eu tranquila.

Desculpe-me, Albert, não fique magoado, de repente tenho vontade de quebrar um copo. Aí está, assim.
Lamento. Perdoe-me. Eu apanho.
Não se incomode.

Ora, não apanho coisa nenhuma!

4 Comments:

Blogger Prozac said...

convite...

7:24 da tarde  
Blogger Claudia said...

Pode acontecer ainda tanto entre os dois...Enquanto se vive, pode sempre acontecer tanta o coisa! E o pior ou o melhor, é que acontece sempre...

Beijo

10:31 da tarde  
Blogger -pirata-vermelho- said...

Já uma vez te disse, em casos destes - Chama-lhe cabrão e foge para trás de mim.

(Embora não fosse preciso. O texto é definitivo... bastaria. Ele lê?)

11:24 da tarde  
Blogger Silvia Chueire said...

Palavras, a escrita, e a distância dos gestos. Às vezes penso quantas vezes confundimos literatura e realidade. E quantas vezes nos embaraçamos nisto.
Tomei outro dia uma vacina. Imunizada que estou posso dizer-lhe: belo texto !

7:33 da manhã  

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