sábado, maio 20, 2006

Verão 96-2006

Lylia Cornelia


o mar é bêbedo e ele é o teu corpo
quando te embriagas revoltas-te
e eu mergulho nas tuas ondas bêbedas e zangadas

oh lá vem mais outra
outra onda que me cobre pernas, ventre, cabeça
no início brincava contigo
tu vinhas e eu fugia
e só às vezes, às vezes
me acariciavas
molhavas
os pés
o calcanhar em fuga
enterrava-se na areia ensopada
mesmo cega já te reconheço
onda orgulhosa
de vaga em vaga
sucessivas marés
cresceram-me algas

um dia, Verão 96-2006
à espera de qualquer coisa
sempre diferente
um dia, entrar no mar
estender-me, nadar
desaparecer sem pânico

olhar para trás, para o mar
à espera de voltar a ver-me sair do mar
esperar as cheias

um dia apareço entre as rochas
pairo acima das casas
sobrevoo o nosso jardim
um dia recolhes-me
comes-me
eu já peixe
sem escama

4 Comments:

Blogger alvarus42 said...

É teu este belissimo poema de tão grande intensidade erótica- maritima?

11:46 da manhã  
Blogger GNM said...

Rose,

Nem sei se és de Lisboa, mas
deixei-te um convite no
EXTRANUMERÁRIO e gostaria
imenso que aceitasses...

Continua a sorrir!

7:37 da tarde  
Blogger mitro said...

Nós homens quando se trata de sereias, todos gostamos de peixe!

10:07 da tarde  
Blogger rouxinol de Bernardim said...

Quanta doçura, quanta maresia, quanta luxúria terna irradiando como um sol poético!

4:06 da tarde  

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