sábado, maio 27, 2006


O dia acaba por passar completamente, para sempre,
e não houve canção, seja de que espécie for.
Há aqui um problema.

Samuel Beckett, Dias Felizes


Todas as manhãs me perguntas por que não chega a canção.
Os lábios incham, fecham-se os olhos
outras vezes sangram, choram
e sabe-se lá porquê a canção não sai.

Claro que ouço melodias!
Vêm de longe, de dentro, brotam no útero, onde a vida começa
enchem corpos de bonecas, caderninhos, soltam-se de vestidos com folhos
enrolam-se em colares de pérolas, alianças, tacões altos, unhas falsas
atravessam corredores silenciosos, incendeiam écrans
metem-se debaixo das mesas, sobem à cabeceira da cama

e desaparecem
sabe-se lá porquê.

Porque a altura não é esta.



Mas procura no meu corpo.

Às vezes a canção não precisa de mim, corre solta
está à superficie da pele, cai das pontas dos cabelos
molha-me a fronte, escorre dos mamilos,
e eu tento agarrá-la, agarrá-la
para te oferecer mãos cheias de versos de amor
sentes? sentes?
o meu espelho às vezes não precisa de mim

Apanha-a tu.

Porque a altura é esta.

5 Comments:

Blogger LA said...

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2:53 da tarde  
Blogger LA said...

bonito...deve haver por aí alguém com muita sorte... se ouvir a tua canção.

4:07 da tarde  
Blogger Claudia said...

Porque a altura é esta...a de dizer que é um bonito poema. Aliás, a altura é sempre a certa!

10:44 da tarde  
Blogger LA said...

A coberta da cama caí no chão.
Rápidos são os movimentos.
Caímos nós sobre os brancos lençóis.
Branca é a tua pele, branca a noite, branca a memória.
Para lá da janela entreaberta,
Onde fumaste um cigarro sofregamente aceso,
É noite, sopra a aragem que agita levemente o cortinado. Branco.
Branco é o desejo, imaculado.
Desejo da tua pele na minha, da tua boca no segredo da minha,
Da minha mão no teu sexo. Aberto.
Branca a almofada onde repousas os cabelos,
Que não são brancos, mas negros e festivos.
Brancas são as horas, sem ponteiros nem limites.
Transparente a água que bebes numa garrafa,
que me passas e donde eu bebo. Branca a sede, branca a fome de ti, Branca a tua fome? de mim?
Branco o saber e a certeza. Branca a dúvida que se arrasta.
Branco o néon do hotel que acende e apaga lá fora
Na noite.
Brancos os olhos de quem passa no passeio,
ignorando a branca loucura que aqui vai.
Brancos os meus olhos iluminados por ti
Da luz que nasce nesse teu corpo branco. Marmóreo.
Branca a distância que nos separa. Logo.
Branco o poema.
Branco
Bran
B

Lite_rario

5:47 da manhã  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Corpo e poema digno da Deusa que casou com Vulcano.

Liter_ário nunca imaginei que escrevesse tão bem!

Muitos parabens por um poema que transpira paixão!


CSD

3:41 da tarde  

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