quarta-feira, maio 31, 2006

Memória das sombras

Meu amor,

Gosto de pensar que o teu corpo nasce nas minhas mãos tão rapidamente como uma frase que escrevo.

O teu corpo e as palavras fazem-me sair de casa, mergulhar na floresta, perder-me em sentidos, até que a angústia é tanta que só posso querer encontrar o caminho de regresso. Se te agarro com força, querido, é por sentir medo. Há sempre um momento, mesmo antes do sobressalto no meu útero, em que a tua boca incha e eu rebento, em que as tuas mãos se abrem, os dedos despontam, e eu quase morro. Voltar a casa, amor, voltar a mim, à sala de todos os partos, é querer que cresças mais. Busco as árvores que marquei a giz e às vezes chego insana e salva.

Um dia há muitos anos encontramo-nos, lembras-te? Eu entrei pelo lado direito do mar, a Norte do Equador, tu entraste pelo outro lado, mais a Sul. Atravessávamos meridianos sempre que nos embriagávamos mas nesse dia aproximaste-te de mim como se tivesses um radar e pudesses saber que eu existia. E depois disseste que nadavas para não morrer.

É possível que qualquer um de nós já só esteja meio vivo, seja apenas meio humano, e que em vez de pés arrastemos caudas, e que junto aos pulmões tenham crescido guelras. Eu às vezes perco o coração e o teu soçobra a cada instante. Mas agora, amor, agora que a água e o ar que respiramos nos sopram vida, quero que sejas tudo o que inventar, deixa-me pegar em mim e acender-te. Agora que sob a acção da luz mudo de cor, deixa-me transformar-me e ser tu já sem memória!

A tua.

3 Comments:

Blogger LA said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

5:42 da manhã  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

A arte de dar beleza às palavras por Lilly Rose. Devias reunir o conteúdo deste blog e publicar sob a forma de livro.

Um beijo

CSD

3:37 da tarde  
Blogger Mystic's said...

Há textos assim, por breves instantes elevam-nos da cadeira, desviam-nos o olhar do ecrã... e quando chegamos ao fim do texto, afinal ainda cá estamos!

12:20 da tarde  

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