quarta-feira, maio 31, 2006

Memória das sombras

Meu amor,

Gosto de pensar que o teu corpo nasce nas minhas mãos tão rapidamente como uma frase que escrevo.

O teu corpo e as palavras fazem-me sair de casa, mergulhar na floresta, perder-me em sentidos, até que a angústia é tanta que só posso querer encontrar o caminho de regresso. Se te agarro com força, querido, é por sentir medo. Há sempre um momento, mesmo antes do sobressalto no meu útero, em que a tua boca incha e eu rebento, em que as tuas mãos se abrem, os dedos despontam, e eu quase morro. Voltar a casa, amor, voltar a mim, à sala de todos os partos, é querer que cresças mais. Busco as árvores que marquei a giz e às vezes chego insana e salva.

Um dia há muitos anos encontramo-nos, lembras-te? Eu entrei pelo lado direito do mar, a Norte do Equador, tu entraste pelo outro lado, mais a Sul. Atravessávamos meridianos sempre que nos embriagávamos mas nesse dia aproximaste-te de mim como se tivesses um radar e pudesses saber que eu existia. E depois disseste que nadavas para não morrer.

É possível que qualquer um de nós já só esteja meio vivo, seja apenas meio humano, e que em vez de pés arrastemos caudas, e que junto aos pulmões tenham crescido guelras. Eu às vezes perco o coração e o teu soçobra a cada instante. Mas agora, amor, agora que a água e o ar que respiramos nos sopram vida, quero que sejas tudo o que inventar, deixa-me pegar em mim e acender-te. Agora que sob a acção da luz mudo de cor, deixa-me transformar-me e ser tu já sem memória!

A tua.

sábado, maio 27, 2006


O dia acaba por passar completamente, para sempre,
e não houve canção, seja de que espécie for.
Há aqui um problema.

Samuel Beckett, Dias Felizes


Todas as manhãs me perguntas por que não chega a canção.
Os lábios incham, fecham-se os olhos
outras vezes sangram, choram
e sabe-se lá porquê a canção não sai.

Claro que ouço melodias!
Vêm de longe, de dentro, brotam no útero, onde a vida começa
enchem corpos de bonecas, caderninhos, soltam-se de vestidos com folhos
enrolam-se em colares de pérolas, alianças, tacões altos, unhas falsas
atravessam corredores silenciosos, incendeiam écrans
metem-se debaixo das mesas, sobem à cabeceira da cama

e desaparecem
sabe-se lá porquê.

Porque a altura não é esta.



Mas procura no meu corpo.

Às vezes a canção não precisa de mim, corre solta
está à superficie da pele, cai das pontas dos cabelos
molha-me a fronte, escorre dos mamilos,
e eu tento agarrá-la, agarrá-la
para te oferecer mãos cheias de versos de amor
sentes? sentes?
o meu espelho às vezes não precisa de mim

Apanha-a tu.

Porque a altura é esta.

terça-feira, maio 23, 2006

Tudo o que passa, fica. É isso a nostalgia?

sábado, maio 20, 2006

Verão 96-2006

Lylia Cornelia


o mar é bêbedo e ele é o teu corpo
quando te embriagas revoltas-te
e eu mergulho nas tuas ondas bêbedas e zangadas

oh lá vem mais outra
outra onda que me cobre pernas, ventre, cabeça
no início brincava contigo
tu vinhas e eu fugia
e só às vezes, às vezes
me acariciavas
molhavas
os pés
o calcanhar em fuga
enterrava-se na areia ensopada
mesmo cega já te reconheço
onda orgulhosa
de vaga em vaga
sucessivas marés
cresceram-me algas

um dia, Verão 96-2006
à espera de qualquer coisa
sempre diferente
um dia, entrar no mar
estender-me, nadar
desaparecer sem pânico

olhar para trás, para o mar
à espera de voltar a ver-me sair do mar
esperar as cheias

um dia apareço entre as rochas
pairo acima das casas
sobrevoo o nosso jardim
um dia recolhes-me
comes-me
eu já peixe
sem escama

quinta-feira, maio 11, 2006

pelo canto do olho assisto ao canto do teu canto do olho
uma melodia frágil, mas curiosa

de mim

e então sou uma orquestra desafinada
imagina
membros violinos, pés oboés, a coluna uma flauta
pestanas de harpa, coração tambor, e a língua pratos

pelo teu canto do olho assisto ao meu ensaio sem maestro
ruidoso, mas inaudível

infeliz

às vezes peço pelo canto do olho
que me libertes do teu olhar

que o teu olhar me faz
cego,
respondes que esse canto não me determina

mas em qualquer esquina, ali ou a milhares de quilómetros
pelo canto do olho assisto ao canto do teu canto do olho

e esse olhar desfaz, amor, desfaz







(assobio: se me libertares não exageres na indiferença)

terça-feira, maio 09, 2006

Tine Drefahl

ando a pensar deitar-me fora. pegar em mim e sacudir-me até quebrar. partir-me de propósito. embrulhar-me, cacos, e arrumar-me no fundo da cave. seria bom não precisar de mim por uns tempos!
sei que devo encontrar-me antes de me deitar fora. parece-me lógico.
se me conseguir encontrar, e é provável que leve algum tempo, não pretendo condenar-me. condenar-me a mim própria é inútil, o absolutamente eu não se altera.
se um dia eu pensar que morri por me ter deitado fora, quando morrer de facto, ninguém vai reparar, não haverá notícia. e isso tranquiliza-me.
deitar-me fora. porque não sou capaz de contemplar o que temo. nem aceitar o que me dá prazer mas não presta.