quarta-feira, abril 26, 2006

lições de francês e de cimento


Lylia Cornelia

Em casa da minha avó todos se sentavam à mesma mesa. Não havia patrões e empregados, adultos e crianças, homens e mulheres. Havia todos à mesa! porque todos trabalhavam.

Eu era a mais nova e tinha um estatuto um bocado diferente porque também estudava, e acho que todos estavam convencidos de que eu ia estudar muito e por muito tempo.
Pelo menos era assim que eu sentia que o Narciso pensava.

O Narciso tinha os olhos verdes mais bonitos que eu jamais vira e era moreno e no Verão tirava a camisola e ficava em tronco nú. Era tímido e se bem me lembro baixava muitas vezes os olhos quando falava. Eu sonhava que ele me amava e amava-o contra todas as barreiras sociais dramas injustiças azares misérias que inventava. Os meios olhares intensos e ternos davam-me certezas.

Para poder estar com ele interessei-me por cimento, areia, água, enxada, como fazer um círculo no meio e ir misturando os ingredientes da massa que colava os tijolos nos muros que era necessário construir por ali, galinheiro, curral, eira, pátio, quintal e fim do quintal, e o outro quintal.

E depois íamos trocando palavras, cautelosamente. Ovídio, poeira, menina não se suje, entrei na desfolhada, saiu-lhe o milho-rei?, uvas e ramadas, vinho americano, a massa tem água a mais, já me distraí!, vou buscar bebidas. Um dia ele pediu-me que o ensinasse a falar francês. A irmã, que tinha ido apanhar laranjas para a Bélgica, acabara colhendo noivo e bilhete de ida sem volta. E o Narciso queria fazer boa figura no casório.

Lições de cimento e de francês. que duraram algumas semanas. Só isso. mas nunca mais esqueci.

2 Comments:

Blogger free emotions said...

vim so deixar uma nota
recordar é viver
Au Revoir

7:26 da tarde  
Blogger Ananda said...

Já não passava cá há muito tempo e fiquei encantada com tudo o que encontrei. Este texto está especialmente bonito! Beijinho!

11:45 da manhã  

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