fala ao espelho
diz-me como é a morte que vai ser minha
Eduarda Dionísio
I.Eduarda Dionísio
tu que me me captas distraída durante o dia e assistes ao meu cansaço nas horas mais improváveis
tu que recebes olhares espantados, esborratados e vapor
que persegues formas e ângulos meus que desconheço
diz-me como é a morte que vai ser minha
que cor terá a minha pele
cobrirá um manto meu rosto
pescoço torso
usarei azul, lilás ou branco
cetim ou tosco pano
verás sobre mim um anjo?
ou serão minhas pálpebras tingidas de negro
e meus braços pousados em cruz
para que ao posar nesta sala sem luz
os meus visitantes se encham de medo?
levarei comigo esta memória de ti e dos que me amaram face a ti
e esta memória de mim e dos que amei sem testemunhas?
poderei atravessar-te e dentro de ti ver-me e chorar-me
e dentro de ti vê-los chorarem-me?
ou só tu guardarás meus gestos e silêncios
nesse fundo reflexo sem consciência
oco como a essência dos mortos
justo com os despedidos da vida?
II.
espelho meu
nasceste herança e assim serás
ilumina com delicadeza aquela que te receber
absorve o seu olhar, respira o seu bafo
que o seu vapor te beije e te lustre
esquece a morte que foi minha



8 Comments:
gosto deste poema.
muito.
mesmo.
o dito da eduarda dionísio é quase tão erótico como a sugestão da imagem ...
ou mais!
Belo poema, Lilly Rose.
Silvia
Gostei Lilly!
Sabes, perdi dois entes queridos nos últimos três anos.
Não voltei a entrar na casa deles desde então. as casas também morrem quando desaparecem as pessoas que amamos...
CSD
A foto é belíssima.
Como todas deste deslumbrante blog!
um beijo
CSD
Gande elogio!
Também digo, Lilly... 'deslumbrante blog'.
Gostei, como sempre! Tenho lido e acompanhado, mas sem tempo para comentários escritos, desculpa. Hoje parei um pouco para desejar bom domingo e deixar um beijinho
é uma visão em olho de pirâmide, a tua. mas também embaciada no espelho,tal é a proximidade...
um espanto de lucidez, sempre.
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