quinta-feira, março 30, 2006

Post it

terça-feira, março 28, 2006

fala às figuras na tela II


enquanto me ocupo do vermelho e do negro, ou da busca da medida certa das trevas no triângulo difuso que vos encurrala, mantenham-se imóveis nesse movimento
permaneçam como que suspensos. segura-te em pontas e protege-a. até que eu volte para vos aclarar

guardo o lamento de não poder parar o tempo, ou colocar-vos numa redoma de algodão azul, quando vos transformais em meus filhos e devo partir
já conhecedora da medida das trevas, do medo que vos domina na solidão dessa tela

(comoves-me quando a envolves nos braços. abres as asas como o pássaro que protege a ninhada. como se a tua fragilidade pudesse suportar a loucura e o pânico)

segunda-feira, março 27, 2006

fala à figura na tela


I
ouvirás o som? o que te sussura o vento?
traço um amo do desejo ou faço do desejo o amo?
ou revelo um mensageiro, aio do deus natureza, por detrás da tua cama?
crio-te sonhos tocados por um invisível halo? adorno amantes com falos?
tingindo-te adormecida, farás meu o privilégio de te ver estremecer
olhando-te de fugida?



II
sentirás o odor que exalas? tintas, pigmentos e química?
ou a chama do pincel eleva o que te cerca
e de uma forma mágica cheiras musgo, sono e breu?
todas fragâncias que avivo pressentindo o teu calor



III
amiga sonhada, dotando-te de beleza
despojando-te de enfeites
deixaste verter em fio
uma calda de agridoce luxúria
inalo-te, besunto-me
debruçado ou afastado de ti



IV
sentes a angústia da inatingível perfeição que pariste em mim?

vergado ao cuidado que exiges
à minúcia do mestre que te criou



V
tudo isto cabe no olhar intenso que te dedico
tudo está contido na mão que pouso lentamente na tela

és bela

quarta-feira, março 22, 2006

fala ao espelho

Sokolsky

diz-me como é a morte que vai ser minha
Eduarda Dionísio

I.
tu que me me captas distraída durante o dia e assistes ao meu cansaço nas horas mais improváveis
tu que recebes olhares espantados, esborratados e vapor
que persegues formas e ângulos meus que desconheço
diz-me como é a morte que vai ser minha
que cor terá a minha pele
cobrirá um manto meu rosto
pescoço torso

usarei azul, lilás ou branco
cetim ou tosco pano
verás sobre mim um anjo?
ou serão minhas pálpebras tingidas de negro
e meus braços pousados em cruz
para que ao posar nesta sala sem luz
os meus visitantes se encham de medo?
levarei comigo esta memória de ti e dos que me amaram face a ti
e esta memória de mim e dos que amei sem testemunhas?
poderei atravessar-te e dentro de ti ver-me e chorar-me
e dentro de ti vê-los chorarem-me?
ou só tu guardarás meus gestos e silêncios
nesse fundo reflexo sem consciência
oco como a essência dos mortos
justo com os despedidos da vida?






II.
espelho meu
nasceste herança e assim serás
ilumina com delicadeza aquela que te receber
absorve o seu olhar, respira o seu bafo
que o seu vapor te beije e te lustre
esquece a morte que foi minha

domingo, março 19, 2006


e dez anos depois perguntas-me como o conheci e eu dou-te a versão de dez minutos.

todas as quintas corríamos demanhã. a ver se o coração rejuvenescia. e éramos sempre só. os dois.
acabámos a conversar, inicialmente sobre os factos diversos da vida, depois, sem querer, sobre pequenos nadas. ele parecia não compreender os seus medos e eu vivia convencida dos meus. foi fácil tornarmo-nos amigos.
às vezes seduzem-nos apenas porque temos vontade de ser seduzidos. apesar de raramente respeitarmos a vontade do outro de nos ser indiferente. mas ele, ele apreciou o meu alheamento, o sorriso na despedida. partíamos como quem tem para onde ir e não quer saber para onde o outro vai.
deixei que adivinhasse; eu era casada. nunca perguntou se era feliz nem ocultei sentimentos compostos de anos de ternura e de confiança, mesmo se, enfim, às vezes me estranhasse a morrer lentamente. ele já se tinha divorciado e vivia mais uma dessas fases de desencanto. divertíamo-nos entre tantas diferenças. meia dúzia de convicções distintas e mais umas tantas incertezas. mas eu, que era aprumada, parecia de repente caótica.
o tempo gaguejou. fomos os mesmos, estes, durante um longo período. e depois, quando partíamos para as nossas vidas, sorrindo, de tempos a tempos, em pequenos compassos, passámos a olhar para trás. pensava nele, o que faria naquele preciso momento, se alguém o abraçaria e quem, e com quanta doçura, e depois, depois esperava que ele fosse feliz e tentava ser feliz nos braços que me eram familiares, sabendo que não há gente feliz sem lágrimas.

não foi um casamento fácil, vivíamos com os olhos em futuros diferentes. mantivemo-nos juntos por uma qualquer espécie de bondade e por um laço raro de confiança. mas quando ele morreu, pensei que ia morrer também. de uma atroz solidão.

nunca mais corri, faltava-me força, física, anímica. tinha tonturas que me faziam recear sair à rua, ou olhar pela janela. arrastava-me de obrigação em obrigação desesperada com a fome de alegria nos olhos dos meus filhos.
um dia ele decidiu procurar-me. a primeira vez que telefonou, não reconheci a voz. depois, depois gemi a morte e desliguei.

quando aquela amiga me apareceu em pranto porque a filha, um acidente, o medo, se eu podia acompanhá-la, o hospital, se eu podia, eu pude. podemos sempre até ao limite do que tem de ser. e depois a pequena surpresa, ele era o cirurgião.
esperámos duas horas, tempo suficiente para temer muito, e eu, em compassos pequenos, cada vez maiores, temi por ele também. quando apareceu no fundo do corredor, olhos baixos, passos lentos, postura de fadiga, comecei a desejá-lo. naquele momento. que durou o tempo da distância que percorreu até nós.
entregou-nos palavras de conforto e a mim, prazer. prazer que se acentuou com aquela inquietação, quase pânico, quando me olhava.
ele inventou sem jeito uma maneira de me levar com ele. e novamente o fundo do corredor e naquele vão o rosto que eu beijei com vontade.

mas chorava muito ainda, e todos os dias. pelo que não estava preparada. digo-vos que amar muito já era possível, mas que amaria mal. o tempo gaguejava novamente.
foi preciso esperar até depois, pouco depois. que às vezes me parece que foi ontem.

e nós, duraremos quanto tempo? vamos amar-nos o suficiente para uma versão curta?

sexta-feira, março 17, 2006

partíamos para as nossas vidas e de tempos a tempos, em pequenos compassos, pensava em ti, o que farias naquele preciso momento, se alguém te abraçaria e quem, e com quanta doçura, e depois, depois esperava que fosses feliz e tentava ser feliz nos braços que me eram familiares, sabendo que não há gente feliz sem lágrimas.

quarta-feira, março 15, 2006

compreendemos os nossos medos ou convencemo-nos deles?

segunda-feira, março 13, 2006

mantermo-nos juntos por uma qualquer espécie de bondade e por um laço raro de confiança. parece-me pouco. ou será muito? falo-te de uma relação curtida pelo tempo.

sábado, março 11, 2006

se vivermos com os olhos em futuros diferentes podemos manter-nos juntos?

quarta-feira, março 08, 2006

podemos sempre até ao limite do que tem de ser. ou não?