
Sokolsky
e se eu tivesse uma cabeça de vidro? aqueles vasos que sinto esticados demais, a um passo pressão de rebentarem, portar-se-iam melhor, se vigiados? sanguínea, observaria diligentemente todas as manhãs a minha fenda inter-hemisférica? e se o cortéx cerebral fosse translúcido, gostaria de me ver ao espelho, para apreciar a minha neuroanatomia e as pequenas variações que ocorressem enquanto executasse diferentes tarefas? inventaria conceitos como o meu cortéx das leituras versus o meu cortéx da escrita? desejaria bater recordes de actividade cerebral? diria, a meio de uma discussão, estou completamente iluminada, vê! e ficaria intrigada com pequenos mistérios: quando lavo a loiça, se uso superpop, acinzento-me mais, para logo me tranquilizar com a descoberta: o medo activa-nos e superpop é o único detergente que não me provoca alergias.
e os amantes, fascinados, fariam a contabilidade das massas brancas ou cinzentas, cantariam poemas aos lobos frontais ou temporais, antes de tocarem seios e sexos? e como sorririam? e se o fulgor dos corpos se sobrepusesse às cabeças de vidros e elas se partissem? ou a omnipresença cerebral significaria também dominância?
acenderia essa visão outras necessidades? e passávamos a usar lentes microscópicas para observar circuitos locais de neurónios. seria romântico olharmo-nos assim, lente a lente? ou impúdico? ou obsessivo, usando apenas os mais ciumentos esse recurso? lançariam os marketeers palas reflectoras para narcisos? teriam essas palas a forma de flores?
se eu tivesse uma cabeça de vidro! em dias de tempestade, as nuvens atravessariam a minha cabeça com suavidade ou lançando relâmpagos, mas todos saberiam. as gotas de chuva carpiriam por mim. e em dias de céu azul, oh imaginem como eu seria em dias de céu azul.
só não sei como latejaria a fronte. ou tremeriam os lábios. ou gritaria socorro quando o tempo me deixasse opaca.


7 Comments:
tu tens! uma cabeça de vidro
resplandecente
Magnífico texto, Lilly!
mas seria um perigo se fosses assim de vidro... pela transparência visível... porque além dessa há a outra, a que se adivinha e se sabe em ti. Apenas revestida de beleza.
Não precisas de ter uma cabeça de vidro. Tudo isso que queres ver se vê sem teres uma cabeça de vidro. Ou mesmo que não se veja podemos fazer de conta que tens uma cabeça de vidro. Que nunca será de vidro porque o vidro não é um sólido mas um líquido amorfo de elevada viscosidade que escorre com extrema paciência, medindo os séculos pela espessura que a gravidade arrasta para a base das janelas. Não, a tua cabeça não é de vidro. Talvez de cristal para que se identifique a transparência de uma forma permanente. E onde pára essa transparência? Onde começa o opaco que reflecte a luz e nos permite ver? Porque o vidro, da areia do deserto ou da praia, também faz os circuitos integrados que pensam ser cérebros electrónicos. O silício do Vale que mudou o mundo e a imagem. Será essa a transparência da tua cabeça? Vou pensar na transparência do silício que agora ficou cilício dos meus pensamentos.
a cabeça, não sei, mas as palavras são de vidro, as suas são de vidro puro, como diamantes, brilham
obrigada e bfs
beijinho, alice
Se a minha cabeça fosse de vidro hoje assistitríamos a uma tempestade. O meu cérebro parece mais o furacão Katrina!
CSD
boa noite,
depois do que li, fico feliz por ser uma cabeça no ar, distraída e apaixonada,
beijinhos,
alice
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