domingo, fevereiro 19, 2006


Sokolsky


e se eu tivesse uma cabeça de vidro? aqueles vasos que sinto esticados demais, a um passo pressão de rebentarem, portar-se-iam melhor, se vigiados? sanguínea, observaria diligentemente todas as manhãs a minha fenda inter-hemisférica? e se o cortéx cerebral fosse translúcido, gostaria de me ver ao espelho, para apreciar a minha neuroanatomia e as pequenas variações que ocorressem enquanto executasse diferentes tarefas? inventaria conceitos como o meu cortéx das leituras versus o meu cortéx da escrita? desejaria bater recordes de actividade cerebral? diria, a meio de uma discussão, estou completamente iluminada, vê! e ficaria intrigada com pequenos mistérios: quando lavo a loiça, se uso superpop, acinzento-me mais, para logo me tranquilizar com a descoberta: o medo activa-nos e superpop é o único detergente que não me provoca alergias.
e os amantes, fascinados, fariam a contabilidade das massas brancas ou cinzentas, cantariam poemas aos lobos frontais ou temporais, antes de tocarem seios e sexos? e como sorririam? e se o fulgor dos corpos se sobrepusesse às cabeças de vidros e elas se partissem? ou a omnipresença cerebral significaria também dominância?
acenderia essa visão outras necessidades? e passávamos a usar lentes microscópicas para observar circuitos locais de neurónios. seria romântico olharmo-nos assim, lente a lente? ou impúdico? ou obsessivo, usando apenas os mais ciumentos esse recurso? lançariam os marketeers palas reflectoras para narcisos? teriam essas palas a forma de flores?

se eu tivesse uma cabeça de vidro! em dias de tempestade, as nuvens atravessariam a minha cabeça com suavidade ou lançando relâmpagos, mas todos saberiam. as gotas de chuva carpiriam por mim. e em dias de céu azul, oh imaginem como eu seria em dias de céu azul.
só não sei como latejaria a fronte. ou tremeriam os lábios. ou gritaria socorro quando o tempo me deixasse opaca.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

II

Lylia Cornelia



Eu não percebi bem a planta da casa. O quarto ficava logo à entrada e já colados arrastámo-nos até lá. Não me lembro se havia luzes acesas, acho que não, porque sei que apalpava partes de corpo para me orientar. Girei várias vezes sobre a cama. Ele era meticuloso no toque das mãos e da língua. Eu ofegava, gemia, depois imobilizava-o, trepava, lambia, montava, curvava-lhe o pénis até ele me endireitar, apertar, sacudir e gritar que se vinha. Não sei quantas vezes.


Ainda embrulhada no corpo dele, acordei com um queixume. Sei que te vais embora mas não vás, não me deixes. Silêncio, e o mesmo pedido. Fui rodando sobre mim. A claridade do dia iluminava o quarto, o quarto do casal, ele e outra mulher que não estava ali. Quando finalmente pude ver-lhe o rosto, descobri os mesmos olhos brilhantes da noite anterior mas um novo olhar, triste, desfeito. Pareceu-me que ambos sabíamos que não era comigo que falava. Mas ele beijou-me. Sussurrei-lhe que descansasse um pouco mais e ergui-me o suficiente para que adormecesse no meu colo.

Uma hora depois recolhi a minha roupa, vesti-me silenciosamente na casa de banho das escovas, cremes e batons dela, e saí para a rua fechando a porta lentamente.



- Emissão simultânea no Amem-se -

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

I

Lylia Cornelia

A campainha tocou. Ainda estranho o toque, a casa é nova. Pouco depois entrou o Luís. O Luís é um amigo de um amigo que há anos tenta sair comigo e que não me atrai de todo porque me parece pequeno, pequeno mesmo, de altura, e talvez também de espírito, mas isso ainda não sei, nem vou ficar a saber. O que sei é que para compensar a falta de estatura, ele fala, fala imenso, e eu ouço mal as minhas tentativas de resposta, sou sempre interrompida, e por isso ele acabou de entrar e eu já estou arrependida e predisposta a detestar a noite que consenti partilhar com ele. Passei a tarde a pendurar sanefas e no quarto a parede é de cimento, foi difícil. Ainda estava a explicar-lhe a razão do cansaço que sentia (e talvez fosse melhor regressar cedo a casa) e ele já subia ao escadote e pegava no black & decker e muito rapidamente instalava o suporte que faltava. Olhou para mim com um ar muito confiante e sugeriu que fosse ele a fazer o jantar. Não! Em dois minutos fico pronta e saímos.

Vai fazer dois anos que eu e o António nos separámos. O Luís sabe, todos sabem, não consigo esquecê-lo. Para contrariar o sentido da posse embarquei em noites audazes ou nem por isso, mas fracassei. Estranho o corpo dos novos amantes.

O carro é pequeno, como o Luís. E também está sujo. Ou é apenas um carro que serve muita gente. O carro transporta crianças, elas deixaram marcas. Penso na proposta dele de me preparar o jantar e convenço-me de que ele procura mulher para a vida. Tens filhos? Conheço-o há anos e não sabia que era pai. Ele tem filhos mas não fala deles, fala de tudo o resto. Conduz, discorrendo sobre o que vemos, vamos ver, sobre o restaurante e as vezes que já lá foi, os amigos, o nosso amigo comum e a mulher dele que é uma chata, primeira gaffe, ela é minha amiga, merda, não aguento este sujeito, vá lá, o restaurante é giro, servem-nos rapidamente, e agora? Agora, levas-me de volta a casa.

A primeira vez que dormi com alguém depois do António foi uma violência. Ele era amoroso, um brasileiro recém-chegado, carente, que depois de me beijar escreveu à mãe para a informar de que já tinha namorada. Com algum álcool a mais pareceu-me possível quebrar o feitiço do António. Mas a nudez corpo a corpo bastou para me despertar do torpor. E depois era tarde demais.

O Luís não concorda. Quer que eu conheça o bar que um amigo dele abriu há pouco tempo. São simpáticos, diz, o bar e o amigo. E eu, vá lá, vá lá, vou.

Ando preocupada comigo, com este desinteresse sensual. Rio-me sempre que penso nisso. Quando o António olhava para mim num lugar público, às vezes murmurava um és interessante, sabes? E eu sabia__ que devia despedir-me de todos. O desejo era urgente. Agora estou desinteressante, sabes?

O bar está vazio. Por trás do balcão estão dois homens que o Luís conhece, o tal amigo e um colega seu de trabalho. Põe-me a mão na cintura e faz as apresentações. Põe-me a mão na cintura e eu escapo.

Depois do brasileiro, seguiram-se outros. Aos poucos, ao ritmo de um passo em frente e dois atrás, aceitei que ninguém tivesse o corpo do único homem que eu desejava.

Aquele gesto do Luís irritou-me. A boneca não é dele! Deixo-o a falar com o dono do bar e sento-me num banco afastado. Arranco o chapéu da cabeça (uso sempre chapéu), e reparo que o outro sujeito, Zé qualquer coisa, me observa. E faço o mesmo.

Ainda devo ser bonita e não perdi o gosto pela sedução. Na verdade, sinto mais prazer no jogo que antecede o acto do que no acto em si. Mas já nem sei se ainda é assim. Nos últimos meses, a certeza do fim súbito do desejo, fez desaparecer o próprio desejo.

Ele preparou-me uma bebida. Explica-me que foi ele que desenhou o bar e que agora passa ali as noites, porque____ sim, e que me prefere sem o chapéu. Sorrimos.

No último dia do ano tomei uma decisão, óbvia, mas importante, apaixonar-me antes que a Primavera acabasse.

Decidimos fazer amor naquele dia, dali a pouco, muito pouco.
Lembrei-me de que tinha deixado de tomar a pílula.
Lamentei ter deixado o casaco no carro do Luís.
Ele ainda perguntou se eu queria ouvir alguma música em particular.
Mas depois, tornou-se claro que era completamente inútil resistir ou complicar. Pegámos na nossa tralha e saímos dali.


(continua)

- Emissão simultânea no Amem-se -

sexta-feira, fevereiro 10, 2006


A partir de hoje, a Lilly Rose vai andar por aqui durante o dia.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006


diz-me para voltar para me voltar para te voltar a olhar. diz-faz
com força.

tenho saudades de andar de combóio para adormecer encostada a ti, e depois acordar afogueada e mal-disposta, com uma dor aqui e outra ali para, magoado, me dizeres que sou má, e então estender os braços, para ver-te passar a mão por trás, e esperar que ela pouse no fundo das costas, e ela pousar para eu baixar as pálpebras sem pensar, mas sabendo que sabes que isso quer dizer gostar, e voltar a encostar-me cheia de saudades de ti e da viagem que vai acabar mas que ali parece não ter fim.

ou: claustrosexo





Jan Bengtsson


e se eu alterar o título, importa?

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

III



a noite trouxe-o por aí
não, não veio com as folhas novas,
caiu caduco
mas segura a voz, segura as mãos, de homem
ainda o peito sim, e eu claro,
olha, nua

enceno o arco para entrar na luminosa casa da língua pura
sentada, sabes, nos primeiros anos

II



acordo às vezes com dezoito ou vinte anos:
os olhos do amor chamam por mim.
(sem pena, Eugénio)
nunca disse não

à voz sumida e terna do rapaz
por quem desci
degraus de vegetal
por quem subi
degraus de animal
até ao luminoso arco
das frescas línguas

I



estou sentada nos primeiros dos últimos anos da minha vida
o outono já começou
(ouviste Eugénio?)

as árvores já não fazem sombra, estão nuas
como eu ao olhar

oiço correr os dias as noites nos sulcos do rosto
e olha, olha, olha
eu