Outra vez me pergunto se estás troçando
Outra vez me pergunto se estás troçando. Não há quem não saiba,
hoje em dia, que a liberdade do selvagem é uma quimera.
António Sérgio, Diálogos de Doutrina Democrática
hoje em dia, que a liberdade do selvagem é uma quimera.
António Sérgio, Diálogos de Doutrina Democrática
Sabes coração, andas a cometer um erro crasso, confundindo liberdade e progresso. A tua liberdade diminui na mesma medida em que evoluis. Vê o tempo. Desde o homem primitivo, absolutamente livre na floresta, ao homem de hoje, que obedece a sinais, obrigado a seguir, nas ruas de uma cidade, pela direita ou pela esquerda. Outra vez me pergunto se estás troçando. Selvagem, mas escravidíssimo a tudo o que na minha selva te cerca. Se eu for branca e tu o meu escravo negro que colhe cana de açucar ou, se quiseres, tu fores branco e eu a tua escrava negra doméstica, sabe que assim é apenas porque já somos escravos da terra. da terra e de todos os símbolos, de todas as representações e imagens. À escravatura chamou-se resgate, resgatas-me, resgato-te, apenas.
Sabes coração, caluniosos inimigos, assim como loucos amigos, dizem-me que não estás preparado para a liberdade. Respondes-me que não existem seres impreparados para o seu natural estado. e que a preparação para a liberdade se faz na luta pela liberdade. Outra vez me pergunto se estás troçando. Vê o tempo. O homem primitivo foi-se libertando dos condicionamentos do meio físico, o homem de hoje aspira a libertar-se espiritualmente. Mas o espírito, coração, são todas as representações colectivas do que nos rodeia. Apenas poderemos des-civilizar-nos para nos re-civilizar-mos.
Sabes coração, tens que me ajudar a compreender, se estou a ir para onde quero ir e o agente de polícia que regulariza o trânsito me torna a tarefa mais fácil. ou se ele me estreita as saídas. Se seguir pela direita ou pela esquerda é até melhor, por reduzir o risco de acidentes, ou se tem muita importância escolher livremente o caminho a percorrer
para chegar a ti.



14 Comments:
esta diatribe não tem a ver com liberdade; tem a ver com cidadania, uma forma de liberdade formatada, não é?
em todo o caso é uma diatribe, apenas, não é? no sentido ancestral do termo...
... uma vez que não há 'liberdade'.
A Liberdade é sempre o melhor de todos os caminhos. E, como dizia o outro, faz-se caminho caminhando.
A felicidade do amor e do espanto conquista a liberdade :)
grande post!
"That's freedom without love
And magic without love
Magic without love"
(massive attack, better things)
Grande post de facto...
"o homem de hoje aspira a libertar-se espiritualmente"
acompanho; será esta a única forma de liberdade que nos resta, a libertação.
Para os budistas a libertação (ou a salvação das religiões do Livro) começa no momento em que o indivíduo rasga a crosta da ignorância e se apercebe da sua situação. Este aperceber-se é a consequência de um acto livre: o eu, a consciência, decide a sua dissolução para escapar do ciclo vida-morte-vida. A liberdade exige um sujeito, um eu. Sem eu não há liberdade de decisão; sem liberdade não há pessoa humana.
(escrito há uns tempos)
o homem de hoje procura libertar-se espiritualmente...
procura libertar-se espiritualmente...
libertar-se espiritualmente...
libertar-se.
libertar
liber
lib.
LIB*EAU DE PERFUM*LIB
Liberte-se!
e...
voltando a esta música especialque aqui puseste... que instrumento se ouve, no início? cora?
A liberdade de escolher caminhos é restritiva. São-nos impostas as direcções: a nós está reservada a escolha dos meandros. No que se confirma o engenho. Mas "formatado" (diz pirata).
Gostei muito da forma engenhosa de ligar texto ensaístico e poesia.
http://www.jelalipps.de/meins/spielspass/ogada.html
Ayub Ogada's life is a prime demonstration of the wonders of cultural collision; the exposure to both traditional African and modern Western values provided a rich background on which he founded his unique musical talents. Ogada is one of the Luo people of Western Kenya, and he received his first exposure to Western culture early on. When he was six, his parents (also musicians), toured the college circuit in the U.S. Ogada then returned to Kenya with his parents, and was educated in a Catholic school, then an English boarding school. After finishing school, he played for several years in a Kenyan group called African Heritage Band, which fused traditional music with the sounds of rock and soul that Ogada and bandmates heard regularly on the radio. In 1986, he decided to take his talents abroad. Armed with his nyatiti (a lyre-like stringed instrument), he went to the U.K., and played on the streets for money. After the better part of a year, he was approached and asked to play at Peter Gabriel's WOMAD festival. In 1993, he was invited to Gabriel's Realworld Studios, where he recorded his first album, En Mane Kuoyo (Just Sand). He continues to tour extensively with WOMAD. ~ Steve McMullen, All Music Guide
Há muitas palavras que, como a liberdade, parecem fadadas para dizer sempre outra coisa que não aquela que queremos dizer. Seria interessante fazer um dicionário dessas palavras que nunca estiveram em lado nenhum senão na intenção de estar em algum lado. De facto um dicionário desses seria apenas uma lista de palavras e à frente de cada uma o vazio de uma imensidão. O curioso, obscuro, enigmático e evidente acaso de sobre elas assentarmos o fio desgrenhado dos nosso sonhos talvez não seja pura coincidência.
ikivuku, mas não é assim com maior parte das palavras? de contentamento a dor, de amor a ódio, de democracia a totalitarismo?
Não sei se é assim com a maior parte das palavras mas acontece com muitas. Daí eu querer um dicionário lista para perceber o grau de milagre que existe na comunicação. É um puro exercício de estatística ou de submissão. De qualquer maneira só muito recentemente me apercebi e convenci desta irresolubilidade das palavras. Provavelmente é isso que justifica que ainda se escreva.
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