quinta-feira, janeiro 19, 2006

I married an angel

Sokolsky (Chet Baker)

i.

As noites são fechadas ou fecho-me nelas à espera de não voltar a sair. Começam no momento em que entro em casa. Nos primeiros minutos ainda sobrevivem impulsos de vida, mas depois eles esgotam-se. A noite instala-se na cama onde caio com poucos sentidos, e me cubro, esquecendo a sentença de que ninguém asfixia voluntariamente com um lençol.
Demanhã resisto a encarar os passos que vou ter de fazer, mas consigo adivinhar a fome e é a imagem da fome em noites fechadas que me ergue e me faz aceitar os balanços do combóio suburbano.
À chegada ao centro da cidade, o mergulho no Metro deixa-me sempre sem ar. No escuro da minha casa cama o que é metálico não range e as pessoas que me vêem chorar choram comigo, aproximam-se para me confortar. Cada canto da almofada tem um cheiro diferente do meu e uma forma que me consola. As minhas pessoas são doces.


ii.

Sentou-se com a caixa sobre os joelhos. Fixei as mãos protectoras do músico que defende o seu tesouro. E só depois quis conhecer os lábios que certamente seriam sábios. Não sei como aconteceu mas, antes de os alcançar, já eram meus. meus. E ali, naquela carruagem suja, bastou sorrir-lhe para fazermos amor.

A brusquidão com que se levantou ofendeu-me. Ninguém pode suscitar tanto amor e partir sem uma palavra. Foi por isso que antes das portas voltarem a fechar, corri para ele. Corri muito. Subi escadas empurrando, virei esquinas sem pôr mãos à parede. Para chegar a tempo.


iii.

Hoje, dia vinte, a minha avó morreu. Escolheu um péssimo dia. Tenho o pressentimento de que à tarde, quando estiver quase a escurecer, ele vai apanhar o combóio e sair na estação da minha casa. Se ele, sem que eu lhe diga nada, sair na minha estação, é porque me procura. Tomei conhecimento dessa lei num filme, ou talvez tenha sido num livro, e decidi respeitá-la.

Tenho-o seguido todos os dias desde o dia um. E foi ele que escolheu sentar-se naquele lugar.
Os pedaços de espaço e as fracções do tempo tornam-se mágicos se soubermos decifrar os sinais.



iv.
As noites são fechadas. Na minha cama compreenderam, e todos se afastaram, para que ele pudesse ocupar esse espaço. Chego a casa e ele está à minha espera. Às vezes, ainda estou no combóio e já o ouço tocar. Lets's get lost, Alone together, Almost blue.
O que mais desejo é oferecer-lhe tesouros e hoje perdi a cabeça, comprei-lhe um trompete. Quero que toque para mim toda a noite, e que essa música não abra as janelas da nossa casa, que circule dentro de nós em círculos e nos afague. Que ele me embale nos compassos de ar que inspira e expira, e me adormeça. Sobre as suas costas quentes e húmidas. E exausto, mas leve, feche os olhos, e adormeça também.


v.
Ando a pensar
se um dia destes não fico em casa, para sempre, com o meu anjo.
Falta tão pouco. Quase nada.

6 Comments:

Blogger jmnk said...

chet baker fica bem aqui... não me surpreende.

5:28 da tarde  
Blogger pirata vermelho said...

como me disseram neste ambiente (lato sensu)
amor com bom-humor se paga

TOMA!
http://www.mp3.com.au/PlayASX.ASP?id=15416&Stream=96&File=Test.asx

5:39 da tarde  
Blogger Fausta Paixão said...

Ai!!! (suspiro)
Eu prefiro demónios assanhados.

7:49 da manhã  
Blogger Leo said...

Vim cá por incentivo da Diva...E como ela tinha razão...desculpa lá, mas vou daqui com os anjos...e hei-de voltar a trazê-los...

1:34 da tarde  
Blogger Márcia Maia said...

que coincidência! eu estou extamente ouvindo Chet, como aliás faço quase todas as noites.

beijo grande daqui, Lilly.

12:27 da manhã  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Amei!

Mi ai parlato diretamente al cuore!

Mille baci!

CSD

12:53 da tarde  

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