terça-feira, janeiro 24, 2006

I married an angel two

Miguel Telles da Gama


Há muitos muitos anos uma mulher jovem decidiu deixar de viver. Tentou uma vez. E depois, novamente. Se ela tivesse sido bem sucedida, eu não teria escrito que ela tentou. partindo do princípio de que as tentações deixam de o ser depois de duplamente saboreadas (e esta palavra não me ocorreu por acaso, posso garantir que a quase morte deixa sabor). teria escrito ela quis (mesmo que, como vereis, querer não seja poder(nem seja uma fraqueza). mas enfim, como escrevi que tentou novamente, poderieis desde logo ter compreendido o fracasso do repetido intento.

Do primeiro ensaio resultaram alguns traumas (a adicionar aos espiritualmente congénitos(porque acredito na reencarnação) e aos naturalmente adquiridos na infância) e fés. Normalmente as pessoas têm fé em Deus, mas esta mulher passou a ter fé na Morte. Porque planeou, usou um método teoricamente infalível, mas não teve êxito, convenceu-se de que a Morte tinha vontade própria, que era uma espécie de entidade soberana no seu território. Para reforçar esta crença, um dos seus salvadores foi chamado pela Morte poucos dias depois. O seu teatro imaginado da Morte passou a ser o do Sétimo Selo de Bergman. A cena de abertura não seria uma praia pedregosa sob um céu pesado mas uma sala escura. Se recordam o filme, a Morte veste uma grande capa negra e enquanto joga xadrez com o cavaleiro(a nossa protagonista, que com Ela partirá se ganhar a partida), a outras pessoas vai ceifando a vida. como a do amigo que a socorreu. A esta imagem ela não juntou felizmente os horrores da peste ou da queima de bruxas, apenas(e tanto) a ideia de Inferno.
Normalmente as pessoas imaginam o Céu para além da morte e desejam-no, mas esta mulher limitou-se a pressentir o Inferno e a temê-lo. É com esta afirmação que vos vou transportar à noite da sua segunda tentativa de suicídio. Ela podia já antever o sofrimento que a sua morte iria provocar nos Outros(entidade igualmente soberana, a que também passou a ser devota) pelo que, depois de tomar as pílulas, aguardou na mais profunda dor e culpa a chegada da Morte. Passadas duas horas, ou menos, ou mais, compreendeu que a Morte não ia comparecer ao encontro e adormeceu. Foi então que tocou o Inferno(tangível, sim, mesmo que raramente). Dada a escassez de referências pictóricas ou outras mais apropriadas, ficar-me-ei pelos jogos de computador. O Inferno seria castanho e composto por um conjunto de pequenos diabos muito ruidosos e em constante movimento up and down, right and left. O Inferno seria a extrema carência de luz e de silêncio. O Inferno seria insuportável. Tão insuportável que ela acordou.
Ao contrário da maioria das fotografias e pinturas de mulheres nuas, a imagem desta mulher, despida na sua cama, não era susceptível de provocar desejo. talvez nem mesmo piedade. É uma ressalva que faço porque, segundo ela, apareceu um Anjo. Ela chorava muito. De barriga para baixo, agarrada à almofada, chorava com o desespero de quem não encontra um lugar aprazível na vida, na morte ou no sono. E de repente pressentiu alguém e assustou-se. Depois, uma mensagem que ela não ouviu, mas recebeu, que não sentisse medo. E então uma mão tocou-lhe a nuca, uma mão concreta, com peso, forma e cheiro. Paralisada, deixou que a mão a afagasse. Não sabe durante quanto tempo ficou assim, nem percebeu uma despedida. Mas quando o Anjo partiu, ela foi tomada pela melhor das sensações. encontrara a serenidade.
Seria pouco crível se vos dissesse que esta mulher viveu feliz para sempre. Nem feliz nem para sempre(se bem que esta última parte dependa mais de Vós do que dela(estimando que os químicos que digeriu de cada vez terão sido completamente eliminados pelo organismo). Mas a história acabou.



Quando vi a pintura do Miguel Telles da Gama, deu-me para pensar que ele a conheceu mas que, enciumado com a estória tão íntima vivida por ela nessa última noite, a desenhou perfeita de formas, e a Ele disforme, qual mostrengo, só para desconfiarmos da bondade dos Anjos.

5 Comments:

Blogger pirata vermelho said...

a rapariga da tua história aproxima-se da história de uma rapariga que conheço e que, sabendo que 'se'deixa sempre uma porta aberta, preparou meticulosamente a acção e o cenário para não ser encontrada enquanto o sono não tivesse acabado. foi. estranha, improvável & miseravelmente! nunca mais foi a mesma pessoa.

(um dia conto-te)

1:16 da tarde  
Blogger Márcia Maia said...

uau! bravíssimo, Lilly!
Um beijo daqui.

12:54 da manhã  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Acho que conheci essa pessoa Lilly. E estranhamente também se assemelha á história do pirata vermelho.

Mas essa mulher revoltou-se contra o anjo que a arrancou das garras da morte. Pelo menos daquele que a salvou da segunda tentativa de suicídio.

A sua maneira de pensar é tortuosa.

A sua vida é um inferno. A paz é para ela a miragem de uma fonte no deserto.

Beijos

CSD

6:23 da tarde  
Blogger pirata vermelho said...

o mundo é grande mas é redondo, claudia...

7:06 da tarde  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

De facto, Pirata...

CSD

5:49 da tarde  

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