quarta-feira, dezembro 28, 2005

e se fosse 1 de janeiro faria um espectáculo de fogo de artifício para vocês


assim.

nem quero saber se ela é hawaiana



Sibalit Landau


I
disseste palavras far __x__x__ pa __x__x__ das.
respondi-te.

podia ser só isso. uma acusação far__x__x__ pa __x__x da.
mas é arte.


II
o corpo é um arquivo de texturas e de movimentos
portáteis.

viajamos com o corpo cheio. e às vezes é difícil fechá-lo.


III
ondular a anca pertence ao nosso arquivo de movimentos,
ferir a pele é uma possibilidade.

ferir a pele ondulando a anca não foi um acidente.

os não-acidentes e os erros são quase sempre criativos.


IV
o meu punctus é a ferida na pele. mas talvez amanhã não seja.
se eu avistar uma ilha ou um submarino, ou tentar adivinhar a idade pelos seios,
ou achar que a púbis não pertence àquele corpo.


V
um hula-hula farpado é um objecto original
mas não sabemos se o que vemos é um hula-hula farpado.

pode ser um arame farpado adaptado a uma utilização original.

a não ser que ele tenha sido criado de raíz:
se Sibalit criou o conceito do hula-hula farpado e realizou o objecto.


VI
se um dos significantes, seja ele qual for, é original,
o exercício da arte é anterior ao do trabalho fotográfico.

a série de fotografias é o suporte
(percebo agora o fotógrafo que expunha as suas fotos sem vidro ou moldura. evitava redundâncias).


VII
a arte resulta dos encontros raros entre significantes. procurar o lado fresco das texturas e movimentos. das formas.

sacudindo as emoções de sempre.


VIII
mas nem sempre podemos ver a-dor nem além-da-dor.

os olhos protegem-nos. e às vezes é difícil abri-los.


IX
pelo que a arte que cultiva a dor, deve ser mais estranha que familiar.

a-dor-dos-outros é mais suportável.


X
é por isso que gosto deste hula-hula ou talvez não farpado.
nem quero saber se ela é hawaiana. hoje.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Post it

Num Directório de Blogs, o Antes que me deite aparece entre o Antes que eu enlouqueça e o Antes uma Punheta. Achei pertinente :))

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Rui Guerra


daqui deste lado da história já todos sabemos que é Natal, mas meu príncipe nunca percebe o que é óbvio. em meados de dezembro fui buscar luzinhas e enfeites ao sotão. (as pessoas nunca falam desses adereços como seus, mesmo que os tenham comprado no ano anterior. parece-lhes sempre que pertenceram à mãe ou à avó. mas pertencem a filhos, porque - não sei se vos acontece pensar assim - nós somos pais e avós daqueles que fomos nos anos passados). como me deprimem os pinheiros decepados e os pinheiros de plástico (é desnecessário explicar-vos porquê, estou certa), costumo decorar taças e janelas e cantinhos da casa com eles. e foi o que fiz. meu príncipe aceita todas as minhas decisões desde que elas me façam feliz. e feliz eu estava. des-envolver bolas de natal coloridas encanta-me. des-enlaçar fios cravejados de flores luminosas apazigua-me. e o mesmo acontece quando penduro anjinhos gabriel em prateleiras ou vãos de escada e ajoelho reis magos sobre a lareira e enrodilho palha para o menino que escondo debaixo dos travesseiros da casa até o dia 25, porque me revejo criança e outras crianças, e mergulho a mão na meia de lã pendurada na porta e agarro o pó dourado e parece magia quando ele chove, e menina rio e todas as crianças que não estão ali riem comigo. meu príncipe gosta da festa que faço. então ontem pegou na máquina fotográfica e disse queres um espelho redondinho? muitos espelhos redondinhos? e fez flash flash flash flash e depois mostrou o que os relâmpagos tinham feito a minhas bolas. havia um príncipe lá no meio. zanguei-me. meu príncipe não sabia que era quase Natal? devíamos ser dois nas bolinhas. para ver se um nosso menino nasce e ri mais alto que os irmãos que partiram antes de todos os Natais.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Sex-Motel

Bernard Descamps


Recepcionista

Costumo vê-los chegar e depois partir como um eclipse. De mim próprio também só vêm os braços que estendo. Os meus são negros. Entrego-lhes as chaves depois de me dizerem se preferem a suite presidencial, o quarto duplo com hidromassagem ou o que tem cama com colchão de água. São sempre os homens que falam, elas deixam-nos decidir e por vezes emitem risinhos. À noite, o máximo que consigo alcançar é uma mão sobre as pernas deles, mas à hora do almoço, hora luminosa de muita frequência, avisto facilmente os joelhos que elas costumam encostar um-ao-outro. Alguns homens usam bons fatos, outros nem por isso, enfim, se as mangas dos casacos não enganarem. Reconheço os clientes habituais pelos carros e pela voz que sai de lá de dentro. Neste último ano, a maior parte manteve a fidelidade ao nosso estabelecimento mas mudou de parceira. À saída, ou entrelaçam as mãos sobre as mudanças do carro ou afastam-se um do outro, mais do que à entrada. Aproveito sempre os momentos em que preparam o pagamento para escutar o passageiro que entretanto se instalou no mesmo veículo. Chama-se silêncio.


Cliente Masculino 1

Vi o anúncio num jornal ou num cartaz foleiro colado num poste à saída da estação de serviço. Pensei é como no Brasil. Tenho de ir lá antes que o Freitas me venha falar do sítio. Mania que o Freitas tem de contar as conquistas que faz, como se a malta não soubesse que a maior parte das histórias são tanga! E depois não devo ser o único a quem começa a custar bombar, às tantas já nem dá uma, bem, deve dar! A Sãozinha é miúda para topar uma noite aqui, tem mais interesse do que eu em ser discreta e curiosa como é vai querer conhecer o sítio, afinal, todas as assistentes sociais deviam conhecer o submundo.


Cliente Masculino 2

Se ao menos eu tivesse a certeza que a tipa se lava! Vou mas é levá-la ao novo motel.


Cliente Masculino 3

O Eduardo é louco. Como é que a Doroteia vai aceitar? (a Doroteia aceitou)


Cliente Masculino 4

Juro-te que é a última vez. Falo com ela quando regressar de Madrid e depois já não vamos precisar de esconderijos! Querida... (ela não acreditou mas foi)


Cliente Feminino 1

Os sex-motéis têm quartos temáticos... do género, cada quarto uma fantasia? E têm algemas nas gavetas em vez de Bíblias? E deixas-me prender-te qu'eu juro que não te faço mal... Mas então por que raio queres ir lá? (chegaram a um acordo. mas parece que foi a última vez)


Cliente Feminino 2

Mas é discreto como? Nem nos vêem a cara? Qu' horror, já viste se me descobrem num sítio desses? (mas foi e é claro que adorou. escolheram o quarto com colchão de água. e as amigas souberam todas)


Cliente Feminino 3

Cala-te, nunca me disseste que vínhamos para um antro destes! Sinto nojo, percebes? (e passou a noite toda amuada a pensar noutro que, esse sim, era educado e sempre a tinha amado e até chorou comovida, e ele a dizer-lhe não chores, e ela sabes lá porque choro)


Cliente Feminino 4

E ele leva-me para um sítio caríssimo, as sanitas até têm aquelas etiquetas à volta! Assim uma pessoa até se sente apreciada!


Equipa de Limpeza

1. A chefe: depois de ser promovida o meu marido passou a aceitar melhor a ideia mas quando se chateia grita tão alto que toda a vizinhança fica a saber que só sirvo para limpar casas de puta.
2. Empregada 1: já vi mundo! estive na Venezuela e lá já havia estes motéis. faço o meu trabalhinho e volto para casa. mas é claro que há gente com cada panca!
3. Empregada 2: In Oekraïne zijn honderden dode kippen en ganzen gevonden die besmet waren met het vogelgriepvirus. De dode vogels werden gevonden in het noorden van het schiereiland de Krim. Daar overwinteren veel trekvogels.
4. Empregada 3: Uit een eerste onderzoek blijkt dat het mogelijk gaat om de voor mensen dodelijke H5N1-variant.


A gerência

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quinta-feira, dezembro 15, 2005

Cenas cortadas IV

Iam em fila, à frente o Jojo com a catana. Alguém disse: podemos chegar à praia atravessando a lagoa. E eles com gente a mais, nem hesitaram. Passar Verões a fazer piscinas, entrar pelo Outono contornando o esporão do mar do Norte, para nadar nesse dia, sem medo, na lagoa. Há sempre um dia em que descobrimos um sentido para todos os sacrifícios. (Hoje dou-me conta de que nunca lhe perguntei onde aprendeu a nadar). Para o sangue circular começamos por aplicar batidas vigorosas e ruidosas. De certeza que de repente parámos e nos rimos. Ou talvez não, havia tanta consciência da beleza da paisagem, há pouco dormiamos já rendidos. à aventura de descer a montanha e adormecer na pequena praia da lagoa do fogo. e agora estamos dentro da lagoa e tu sabes que vais olhar para mim e que eu vou olhar para o teu olhar. e esse momento está quase a acontecer. Mas primeiro (Se não te importas)(Não te importas) vou olhar à minha volta e respirar o verde. Respirar o verde tão fundo que o fundo negro das águas se torne verde para mergulharmos no verde para te afundares no meu verde.(Mas eu importo-me).(Ora bem, estamos entre o céu, as árvores e o fundo vulcânico de uma ilha, fundidos nas águas, nadando já sem quebrar o silêncio, e)(não diria assim, antes já a imitar a voz da natureza)(fundidos)(fundidos)(e tu importas-te?). Na superficie da água também há erva. Se nos suspendermos assim e te enrolares em mim, dissolvemos o desejo sem perturbar ninguém. O Jojo diz: ainda bem que trouxe a catana. Vês, eles ouvem. Este prazer vai ser o único som que se ouvirá por sobre a água. Há gente a mais.


Na margem

oJojoatentaradivinharosnossossentidosenósaescondê-losfumandotristes. sentados a pisar a erva.

domingo, dezembro 11, 2005

Cenas cortadas III

Bernardo amava Clara. Paulo vivia apaixonado pela irmã de Clara, Rosa. Rosa não esquecia Eduardo mas queria esquecê-lo. Francisco amava Pedro sem querer. Pedro amava Bernardo. Paulo saiu com Rosa e apresentou-lhe Francisco. Os dois acabaram a noite juntos sem que ninguém, Paulo, ou eles próprios, soubessem porquê. Pedro fez uma festa para Bernardo. E foram todos convidados.
Paulo adormeceu depois do jantar. Bernardo, perturbado, não parava de olhar ora para a Rosa ora para a Clara. Rosa dançava com Pedro e começava a sentir uma emoção rara. Clara falava ao telefone com Dulce, que era irmã de Goreti. Francisco amuou. E Rosa e Pedro sentiram-se culpados. Clara despediu-se de Bernardo quando Rosa disse que queria muito ir embora. Francisco disfarçou e supostamente ficou na festa para ajudar Pedro. Bernardo decidiu ir atrás das irmãs. Pedro amuou. Quando Paulo acordou, não havia ninguém que quisesse falar com ele.

Entretanto Eduardo começava a sentir-se feliz com a nova namorada Goreti que, além de também ser militante do PCP, tinha umas mamas muito maiores que as de Rosa. Mas depois de Goreti, que acabou por ter quatro filhos com Paulo, Eduardo teve muitas outras namoradas.
Rosa casou com Bernardo e Clara preferiu assim.
Francisco casou com Alice e era melhor não voltar a ver ninguém.
Pedro foi viver para o Brasil e há muito tempo que deixou de dar notícias.
Da vida de Clara só ela sabe.
Da vida de Dulce, nem ela sabe. quanto mais o Alberto Pimenta.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Ives Netzhammer

aconteceu-lhe ter dois pensamentos simultâneos ao olhar para ele.
o primeiro nasceu do odor da sua voz do som da sua pele da cor dos sentidos do silêncio sinfónico. cresceu no presente do indicativo mais pessoal. e era premente. fazes-me querer viver.
fractal, o segundo. como duas ilhas, não sendo certa a força que os fazia pertencerem ao mesmo arquipélago. quero no futuro que digam de nós que somos velhos e fragéis de força mas sempre amantes. como se o calor dos nossos corpos hoje transbordasse até os nossos corpos vergados desse muito depois de amanhã.

e então ela ascendeu aos céus. para congelar o momento. e afinal não viveu.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

II

Bea Emsbach

é o mais certo. mesmo que Pentesileias e batalhas com Ulisses, mesmo que arco-flecha e lança, de seios comprimidos queimados cortados, nunca seremos a-mazós amazonas mulheres sem peito. varonis e robustas em Termodonte batalhas que perdemos, vingamo-nos com sangue e inocência. movidas pelo desespero da beleza.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

I

Bea Emsbach

é o mais certo. mesmo que os rebentos se puxem. pelo menos os pés, continuam agarrados à cabeça das mães.
e elas agarram-se umas às outras. que condói este parto. de cortar o cordão ao longo das vidas.

sábado, dezembro 03, 2005

ouvi uma história esta noite. não vou conseguir reconstitui-la. vou milagrá-la.

mas as cuecas estavam debaixo da cama completamente perdidas, às escuras. e o soutien estava em cima de um armário, apavorado porque podia cair. e as roupas dele e dela estavam abraçadas em cima da cadeira. e a garrafa sentia-se oca, e os copos queriam tomar um duche rapidamente, sobretudo aquele com uma mancha de bâton bordeaux. e na cozinha os croissants temiam o nascer do sol porque concerteza seriam devorados a essa hora.

e ele e ela levantaram-se de repente e começaram a compor-se. apanharam as cuecas dali, o soutien dacolá, enfiaram a roupa... sem que isso fizesse dele mais ele, nem dela mais ela. e deixaram a casa.



compor-se para deixar de se ser quem é.
(ficaram a ganhar os croissants)