sábado, novembro 26, 2005

Cenas cortadas

Ele vai a casa dela todas as terças-feiras demanhã.

Desde os primeiros encontros que pouco falam. A saciedade que buscam não se alimenta de palavras. Lançar um Bom dia sempre foi muito, porque inútil. Perguntar quanto tempo hoje, cínico, será o tempo que for possível. Pedir-lhe qualquer coisa, um abuso. Nem ilusões nem círculos. Há vontade de amor físico, de possuir. E porque são eles, de lembrar os sentidos, de os atiçar, tentar domar.
Começam sempre da mesma maneira. Ele mergulha a cabeça no pescoço dela e tudo cresce à medida que inspira. Às vezes cruzam o olhar sem querer. Então ela baixa-se e esconde o rosto no sexo dele. Mas geralmente rodam um dentro do outro, um à volta do outro, em movimentos de translacção em que ela é quase sempre o centro da terra. E de tempos a tempos, entregam-se a mortais e rodilhas. E de tempos a tempos apenas aquele desnudar prático, o estender dos corpos, dar as mãos e a cópula funda, gemida.

Depois respiram, arrefecem, e voltam a aquecer com o que for possível. Os braços, as costas, as pernas, o lençol, dos dois, até ao fim do repouso.

Sem palavras, surge a ordem que os deixa com um ar sério. Ele veste-se silencioso, atento aos sinais. Mas raramente capta qualquer coisa nova nas pequenas distracções que acontecem entre a cama e a casa de banho. Ela percorre esse caminho já sozinha. Caminha devagar, passa uma mão pelo pescoço, levanta o cabelo, estica os braços, e despede-se. Do duche, lança-lhe no mesmo tom de sempre, baixo, calmo, um segundo adeus.

Ele não tem mais ninguém. Ela sabe. Ela não pode ter mais ninguém.

Ultimamente qualquer coisa mudou. Ele descobriu o nome dela e às vezes zanga-se. Quando se zanga, não aparece. Se ele pudesse vê-la nessas manhãs de espera, como continua a olhar-se ao espelho e se penteia mais uma vez, como mais tarde acelera o passo e as tarefas para o esquecer e como invariavelmente acaba a chorar sem muita pena de si própria, se ele pudesse vê-la, e ele quase a vê, levaria tempo a recuar, a voltar atrás, tocar a campaínha e afundar-se no pescoço dela. Levaria o tempo possível, uma semana.
Ultimamente ela tem sido mais generosa. Às vezes diz-lhe que quer dar prazer e dá-lhe prazer e depois diz-lhe que ele não tem que retribuir. Parece-lhe muita generosidade, uma nova generosidade nela. Mas depois ela estende-lhe a roupa e diz-lhe adeus e do duche ele ouve ainda o seu segundo adeus. A generosidade foi dele que ofereceu o corpo.

A um amigo ele falou da mulher das terças-feiras. O amigo disse que parecia um sonho e essa ideia fá-lo sempre sorrir. Mas hoje cruzou-se com esse amigo depois do trabalho. Estava cansado. Por isso disse-lhe que sim, que continuavam a ser amantes, mas que ela não precisava dele e que se sentia cada vez mais lixo.
Em casa, ela apertava o saco do lixo quando ouviu um relógio bater as horas. Foi à janela e ficou lá parada durante muito tempo.

10 Comments:

Blogger Isabela Figueiredo said...

Excelente texto. Muito bom. Muito durasiano.

2:28 da manhã  
Blogger jp(JoanaPestana) said...

O que isto me recordou...
Tanto que gosto da maneira como escreves aqui...
Beijo

3:13 da tarde  
Blogger Elipse said...

Há saciedades que também se alimentam de palavras.Ou sou eu que sou exigente.

Aqui saciei-me de qualidade.

9:36 da tarde  
Blogger Augusto Furriel said...

antes que me deite deixa-me perder nos caminhos iludidos das palavras de que sabe...

Muito bom mesmo... Uma referencia de blog.
Pf comenta no meu,gostava uma vez de ter uma opinião de alguem de dentro.(www.bocadosdenada.blogspot.com)

Atenciosamente...

11:26 da manhã  
Blogger isabel mendes ferreira said...

muito bom. mesmo. subscrevo as Palavras em Linha. abraço.

11:26 da manhã  
Blogger Maria Heli said...

lindo, lily. sensual, como tu ;)

1:54 da tarde  
Blogger Solteirão said...

Este blog é delicioso. Tão fresco, tão cheio de ideas e pensamentos.

Voltarei.

"Cenas cortadas" fez-me lembrar o filme "Intimidades" que vi (bom, ver ver só vi os primeiros 45m) no fim-de-semana. Retrata a história de um homem e uma mulher que se encontram uma vez por semana, todas as semanas, para se entregarem aos prazeres carnais, sem trocarem uma palavra ou qualquer afecto.

Bom, pelo menos os 45m iniciais assim eram.

Por cá voltarei, e não só às terças de manhã

2:29 da tarde  
Blogger mfc said...

Há palavras que se conseguem substituir aos actos e às emoções que descrevem por serem escritas com um sentimento único.
Merece um grande... BRAVO!

9:34 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

"ficou lá parada durante muito tempo", bonito, o tempo. sempre o tempo.

1:19 da manhã  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Tudo o que ecreves a mim parece-me tão familiar...

A qualidade é excelente como sempre.

Já tens material para, pelo menos, três livros!

Está na ora de começares a editar...

Podias fazer o lançamento no "Navio"...

Beijinhos
CSD

5:56 da tarde  

Publicar um comentário

<< Home