quarta-feira, novembro 30, 2005

Cenas cortadas II

Encontraram-se no supermercado Atach. Numa secção qualquer ela reparou nele. ou que ele reparara nela. Talvez fosse quase impossível não se cruzarem novamente. Cruzaram-se muitas vezes, já sorriam. Na caixa ele ficou atrás dela. Enquanto os artigos deslizavam, continuavam a sorrir. De vez enquando, ela fazia de conta que se esquecera dele. E depois voltava a fixá-lo, olhos nos olhos, e sorriam. Espreitou o cesto dele. Uma embalagem de um pré-congelado, pão e bebidas. Vivia sozinho. Ele percebeu, fixou as compras dela. Legumes, fruta, leite com suplemento de cálcio, danoninhos, fraldas, etc.. Quis soltar uma gargalhada quando viu a expressão que ele fez involuntariamente. Estava decepcionado. Antes de sair, olhou uma última vez para ele. Ele ouviu-a despedir-se.
Estava quase a chegar a casa quando ele passou por ela. Virou-se completamente e sorriu-lhe de novo, divertido por a surpreender. Ela não reagiu e ele acelerou o passo. Quando dobrou a esquina viu-o novamente. Estava parado em frente à sua porta, procurava as chaves. E foi com as chaves na mão que a viu aproximar-se e tirar também as chaves. Ele abriu-lhe a porta. Ela chamou o elevador. Ele voltou a abrir a porta para ela entrar. Ela carregou no botão com o número 4. Ele carregou no número 5. Olharam tímidos um para o outro. Mora aqui? Há dois meses. Não é francês? Não, turco. E você? Portuguesa. Então vamos encontrar-nos mais vezes. Sim, somos vizinhos. Casada? Sim. Eu só tenho um cão. Se ele ladrar de noite não se zangue. Não. E se for o bébé a chorar, também não se zangue. Não, ponho música.

sábado, novembro 26, 2005

Cenas cortadas

Ele vai a casa dela todas as terças-feiras demanhã.

Desde os primeiros encontros que pouco falam. A saciedade que buscam não se alimenta de palavras. Lançar um Bom dia sempre foi muito, porque inútil. Perguntar quanto tempo hoje, cínico, será o tempo que for possível. Pedir-lhe qualquer coisa, um abuso. Nem ilusões nem círculos. Há vontade de amor físico, de possuir. E porque são eles, de lembrar os sentidos, de os atiçar, tentar domar.
Começam sempre da mesma maneira. Ele mergulha a cabeça no pescoço dela e tudo cresce à medida que inspira. Às vezes cruzam o olhar sem querer. Então ela baixa-se e esconde o rosto no sexo dele. Mas geralmente rodam um dentro do outro, um à volta do outro, em movimentos de translacção em que ela é quase sempre o centro da terra. E de tempos a tempos, entregam-se a mortais e rodilhas. E de tempos a tempos apenas aquele desnudar prático, o estender dos corpos, dar as mãos e a cópula funda, gemida.

Depois respiram, arrefecem, e voltam a aquecer com o que for possível. Os braços, as costas, as pernas, o lençol, dos dois, até ao fim do repouso.

Sem palavras, surge a ordem que os deixa com um ar sério. Ele veste-se silencioso, atento aos sinais. Mas raramente capta qualquer coisa nova nas pequenas distracções que acontecem entre a cama e a casa de banho. Ela percorre esse caminho já sozinha. Caminha devagar, passa uma mão pelo pescoço, levanta o cabelo, estica os braços, e despede-se. Do duche, lança-lhe no mesmo tom de sempre, baixo, calmo, um segundo adeus.

Ele não tem mais ninguém. Ela sabe. Ela não pode ter mais ninguém.

Ultimamente qualquer coisa mudou. Ele descobriu o nome dela e às vezes zanga-se. Quando se zanga, não aparece. Se ele pudesse vê-la nessas manhãs de espera, como continua a olhar-se ao espelho e se penteia mais uma vez, como mais tarde acelera o passo e as tarefas para o esquecer e como invariavelmente acaba a chorar sem muita pena de si própria, se ele pudesse vê-la, e ele quase a vê, levaria tempo a recuar, a voltar atrás, tocar a campaínha e afundar-se no pescoço dela. Levaria o tempo possível, uma semana.
Ultimamente ela tem sido mais generosa. Às vezes diz-lhe que quer dar prazer e dá-lhe prazer e depois diz-lhe que ele não tem que retribuir. Parece-lhe muita generosidade, uma nova generosidade nela. Mas depois ela estende-lhe a roupa e diz-lhe adeus e do duche ele ouve ainda o seu segundo adeus. A generosidade foi dele que ofereceu o corpo.

A um amigo ele falou da mulher das terças-feiras. O amigo disse que parecia um sonho e essa ideia fá-lo sempre sorrir. Mas hoje cruzou-se com esse amigo depois do trabalho. Estava cansado. Por isso disse-lhe que sim, que continuavam a ser amantes, mas que ela não precisava dele e que se sentia cada vez mais lixo.
Em casa, ela apertava o saco do lixo quando ouviu um relógio bater as horas. Foi à janela e ficou lá parada durante muito tempo.

quarta-feira, novembro 23, 2005

stupeur

Francis Bacon


No primeiro momento estão sós, entrelaçados. e depois também até que um observador é introduzido. sós e entrelaçados Já não são os mesmos.

tese: tremblements

Francis Bacon


prólogo: até as pirâmides do Egipto foram violadas. os ladrões tinham mais fome que os arqueólogos.

experiência1: primeiro colocamos os personagens num espaço e deixámos bem claro que pertencem a esse espaço. pressuposto1: logo eles dirão que o espaço lhes pertence. e serão muitos os espaços que pertencem a cada um.
experiência2: depois, por acaso ou fermento, interceptamos dois espaços, fundindo as fronteiras. e outros dois. e mais dois. e assim até a partilha ser uma obrigação generalizada. pressuposto2: alguns morrem. clamando até ao fim que o espaço lhes pertence e que injustamente foram invadidos. outros enriquecem invadindo. bradando méritos e justiças. e outros dirão que a fusão os educa. poucos, estes. mais raros ainda os que se amotinam.

observação: no fim todos os personagens se transfiguram. dedução: pelo que a formação de monstros, arcanjos e outros seres humanos depende da arquitectura dos espaços e da inexistência de linhas divisórias claras.

lei: os muros são utopias.

terça-feira, novembro 15, 2005






com asas sobrevoar o teu corpo em flor


homem

transformar a tua saliva em pólen

pousar as patas nos teus lábios
sugar-te
fazer-te mel

e nem saberes



Para o Escrita Solta. que tem sempre um desafio à nossa espera.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Raíz

AILITLA

mesmo quando está só
ailitla está na fila


de Alexandre O' Neill

domingo, novembro 13, 2005



as-mi-nhas-per-nas-en-ros-cam-se-nas
per-nas-que-se-en-ros-cam-nas-mi-nhas
per-nas-en-ros-ca-das-nes-te-len-çol
que-no-fim-do-a-mor-é-uma-ros-ca
ou-bo-lo-com-a-mas-sa-tor-ci-da
ou-bo-lo-em-for-ma-de-ar-go-la
ou-in-sec-to-que-rói-a-ma-dei-ra
ou-a-lar-va-do-es-ca-ra-ve-lho
e-to-dos-mor-dem-o-sol-no-len-çol
e-to-dos-mor-rem-ao-nas-cer-do-sol

en-tão-mi-nhas-per-nas-fi-cam-sós
e-s'en-ros-cam-uma-n'ou-tra-à-to-a

sábado, novembro 05, 2005

des-ligas

Sabine Leve


O que existe de mais frio em ti
é o rosto

des-gasta-me dizes

Então disse-te

O que mais desejas em mim
são os seios

des-freiam-te

Então fiz-te
o que mais temes em mim

A vontade

usar ligas
desfocar-te
cegar

o que existe de mais feio em ti
a retina

mental
de metal
animal
.
.
.
.
.
.
.
.
des-ligas-me ?

ah, para eu pôr as ligas



Para o Escritor Famoso (out of concurso, please)