sexta-feira, outubro 28, 2005

como um velho cortador de bambus encontrou uma menina e a educou

Já são coisas do passado. Durante o augusto reinado do Imperador *** havia um velho cortador de bambus. Com esses bambus fabricava cestos que dava a quem os quisesse e o dinheiro que recebia garantia-lhe a existência. Um dia, estava ele na densa floresta a cortar bambus para fazer os cestos, uma faúlha de ouro jorrou de uma árvore e um ser de umas três polegadas de altura apareceu num nó que havia no tronco.
Ao vê-lo, o ancião pensou: "Há muito tempo que corto bambus, mas é a primeira vez que encontro uma coisa destas!" Todo contente, pegou no pequeno ser pela mão e voltou para casa. Ao chegar, anunciou à sua velha esposa: "Olha! Encontrei esta menina no meio dos bambus!"
A velha também ficou muito contente e começou por deitar a menina num cesto, mas, passados três meses, já ela tinha um tamanho normal. À medida que ia crescendo, a sua beleza ia-se tornando sem igual neste mundo, custava a acreditar que fosse um ser vulgar, e os dois velhotes amavam-na cada vez mais ternamente, cuidando dela com infinitos cuidados. E a história dessa jovem e da sua beleza irreal não tardou a espalhar-se pelo mundo.
(...) Em breve, todos os nobres desse tempo e mesmo as ilustres personagens da Sala de Cima a pediram em casamento, mas ela não respondeu a nenhum.
(...) Um dia, o Imperador ouviu falar dessa mulher. (...) Ao vê-la, soube que era de facto de uma beleza maravilhosa e sem igual neste mundo, e pensou: "Será por querer ser minha esposa que dissuadiu os outros homens de se aproximarem dela?" Ficou feliz com este pensamento e anunciou: "Vou levar-vos imediatamente para o Palácio onde sereis Imperatriz a meu lado." Mas ela respondeu: "Nada me faria mais feliz do que saber que Sua Majestade deseja casar comigo e fazer de mim Imperatriz, mas, na verdade, eu não sou um ser deste mundo."
(...) Nunca se soube quem era essa mulher. Também não se sabe porque passou a ser filha daquele ancião. Ninguém no mundo foi capaz de o explicar. É uma história maravilhosa que assim nos foi transmitida e contada. E assim dizem que tudo isto foi contado.

Pascal Quignard


Há quatro dias encontrei um ser neo-humano nesta árvore. Há quatro dias esse ser neo-humano também me encontrou numa árvore. Mas ele não é um ancião, nem um nobre, nem um Imperador. nem eu. Por isso deixamos o meu-dele ser na árvore. E de tempos a tempos vimos contemplá-lo. Mas nenhum é deste mundo. E nós também não. Porque a verdade é sempre uma mentira e por isso é preferível não a contar. E assim dizem que tudo isto (não) foi contado.

2 Comments:

Blogger mfc said...

A desconstrução com todo o sentido de uma metáfora que nos faz pensar, tal como a desconstrução.

9:42 da tarde  
Blogger Andre_Ferreira said...

E eu creio que não li o texto que não escreveste, porque também tenho pouco de real...

2:26 da tarde  

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