domingo, outubro 30, 2005


O mundo que inventei sustenta-me ainda que os versos falem apenas de desejo e este seja apenas uma espécie de futuro que às vezes às-vezes se transforma em carne e se vive. e o que se vive gasta-se, não se poupa, sustentando-nos assim muito temporariamente. e ainda que nunca aborde o pão. esse pão que (l)incha a carne, e lhe dá cor e peso, a movimenta. enfim, talvez se viva melhor noutros lugares.

adeus, vôo até lá

sexta-feira, outubro 28, 2005

como um velho cortador de bambus encontrou uma menina e a educou

Já são coisas do passado. Durante o augusto reinado do Imperador *** havia um velho cortador de bambus. Com esses bambus fabricava cestos que dava a quem os quisesse e o dinheiro que recebia garantia-lhe a existência. Um dia, estava ele na densa floresta a cortar bambus para fazer os cestos, uma faúlha de ouro jorrou de uma árvore e um ser de umas três polegadas de altura apareceu num nó que havia no tronco.
Ao vê-lo, o ancião pensou: "Há muito tempo que corto bambus, mas é a primeira vez que encontro uma coisa destas!" Todo contente, pegou no pequeno ser pela mão e voltou para casa. Ao chegar, anunciou à sua velha esposa: "Olha! Encontrei esta menina no meio dos bambus!"
A velha também ficou muito contente e começou por deitar a menina num cesto, mas, passados três meses, já ela tinha um tamanho normal. À medida que ia crescendo, a sua beleza ia-se tornando sem igual neste mundo, custava a acreditar que fosse um ser vulgar, e os dois velhotes amavam-na cada vez mais ternamente, cuidando dela com infinitos cuidados. E a história dessa jovem e da sua beleza irreal não tardou a espalhar-se pelo mundo.
(...) Em breve, todos os nobres desse tempo e mesmo as ilustres personagens da Sala de Cima a pediram em casamento, mas ela não respondeu a nenhum.
(...) Um dia, o Imperador ouviu falar dessa mulher. (...) Ao vê-la, soube que era de facto de uma beleza maravilhosa e sem igual neste mundo, e pensou: "Será por querer ser minha esposa que dissuadiu os outros homens de se aproximarem dela?" Ficou feliz com este pensamento e anunciou: "Vou levar-vos imediatamente para o Palácio onde sereis Imperatriz a meu lado." Mas ela respondeu: "Nada me faria mais feliz do que saber que Sua Majestade deseja casar comigo e fazer de mim Imperatriz, mas, na verdade, eu não sou um ser deste mundo."
(...) Nunca se soube quem era essa mulher. Também não se sabe porque passou a ser filha daquele ancião. Ninguém no mundo foi capaz de o explicar. É uma história maravilhosa que assim nos foi transmitida e contada. E assim dizem que tudo isto foi contado.

Pascal Quignard


Há quatro dias encontrei um ser neo-humano nesta árvore. Há quatro dias esse ser neo-humano também me encontrou numa árvore. Mas ele não é um ancião, nem um nobre, nem um Imperador. nem eu. Por isso deixamos o meu-dele ser na árvore. E de tempos a tempos vimos contemplá-lo. Mas nenhum é deste mundo. E nós também não. Porque a verdade é sempre uma mentira e por isso é preferível não a contar. E assim dizem que tudo isto (não) foi contado.

quinta-feira, outubro 20, 2005

balada exultante

um dia num passeio outonal depois de me ter des
florado toda em amena conversa com o Alberto Pi
menta perguntei a mim mesma qual a sorte do ou
tono? a nossa vida é como uma estação do ano ou como as quatro estações ou as estações são como a nossa vida? O outono nem
sabe porque começa mesmo naquele dia e não no dia
seguinte e não depende muito dele se os dias são amenos
ou chuvosos sendo no entanto certo que vão ficando mais
curtos e que há sempre um ventinho a fustigar (sentirá o outono quando está quase a terminar?)
absorta me deixei assim ir à deriva até que as folhas caí
das no chão e que eu ia triturando ganharam voz e essa
voz era um murmúrio tão doce que me apeteceu deitar
-me com elas e ouvir as suas histórias sobre cama
leões e cores que iam conhecendo à flor da pele (todos conhecem algumas das tonalidades das folhas outonais)
e destas histórias tão puras fui percebendo que também
podia ser uma folha (mas é claro que não sou) e es
tava quase a adormecer quando o Alberto abriu um
afluente do seu largo rio e morri com elas
antes do fim do outono ah!

quinta-feira, outubro 13, 2005


Lês os contornos do meu corpo como aquela cigana leu as linhas da minha mão.

dentro do espelho nítida, contigo,
rosto liso peito iluminado esterno saliente
ventre de penugem dourada
pus a mão e disse-te Quente
sexo pernas moldados por sombras que revelam relevos
segredos
és
vulto que percebemos ao fundo
provocador ausente
ciente

sais do escuro
centras-te dentro do espelho
que eu solte os cabelos e o instinto
que apenas te espreite no estanho do móvel
e depois essa ideia
que eu erga o queixo e permaneça imóvel
e eu consinto
_____que o meu corpo marque os dois destinos



certamente que me observara de longe, eu atravessei o largo da fonte, pus a carta no marco e no regresso passeei as mãos pela água.
num instante, segurou-me com palavras, esticou-me a mão molhada, olhou e disse: só estás com ele porque ele está longe

domingo, outubro 09, 2005

antes que me deite
volto ao muro das lamentações. Ouves o lamento?
tem um fundo negro tão bem pixelado e mal vivido
(se o fosse havia graffitis, ou apenas alguma erosão, ou caca de pombo, um risco)
não tem nenhum risco

é difícil sofrer da confusão dos falsos amores aqui nascidos
e chorar a culpa as culpas que se multiplicam da liberdade de criar
tanto mais que deixar-nos uns aos outros é quase inevitável
e é tão previsível amar e estar sozinho
o que seria da literatura sem esse ímpar?

Ouves o lamento? quase espicaço carpideiras
sob a vulgar motivação de fazer vibrar os espíritos sensíveis
que nas solitárias noites entram neste sítio escuro
ouve-me ajuda-me Ouves o lamento?
sou eu a voz. que inventa

Não voltes. pelo menos enquanto não aprender a prender-nos
e dessa lição não fizer poesia

Ouves?

terça-feira, outubro 04, 2005


Não faças milagres por amor de mim
Rainer Maria Rilke

Tenho tentado ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. amas-me com ódio e sou tão pequena que só em bicos de pé o teu olhar não me esmaga. Imagino-te o céu e o vento e ergo-me sobre ti para que o meu rosto não sombreie nem a minha direcção assuma o sentido do teu sopro.
ficar-em-pé contrariando os sentidos que se inclinam. silencioso aproximas-te como um animal feroz e sou a corça que salta antes de ficar encurralada e te olhar suplicante. Marro contra a tua fronte para que me temas e não me unhes voraz.
ficar-em-pé contrariando este trabalhoso atravessar o-teu-corpo-sem-me-magoar atravessar o-ódio-e-perdoar-o-teu-medo de não seres grande.
ficar-em-pé para te ver percorrer o caminho.