sábado, setembro 17, 2005

Milagrar um poeta

Eu nunca tinha ouvido falar de Corumbá. Mas ontem houve alguém que disse: vivo em Corumbá. E mais alguém disse: Manoel de Barros não é de Corumbá? E foi assim, por causa de Corumbá, que eu conheci um poeta novo. Por isso e porque existem pessoas muito bem informadas.
Quem o conheceu diz que ele é mesmo novo. Tem 89 anos mas desde os 17 que inventa palavras. Digo isto porque me passaram para a mão uma antologia que tem este nome: "Tudo o que não invento é falso". Para que as palavras sejam verdadeiras, o poeta inventa-as. Ele inventou a palavra Milagrar. que é verdadeira nas seguintes aplicações:

Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam
a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)


Acho que vou transcrever outros poemas de Manoel de Barros, ou será que já o conhecem?

10 Comments:

Blogger Claudia Sousa Dias said...

Estás intimada a partilhá-los conosco!

Nuncaouvi falar deste poeta mas estou a adorar!

CSD

4:18 da tarde  
Blogger Lilly Rose said...

Claúdia, é brasileiro, nascido em 1917 (ainda vive!)

Viveu em NY, Paris, Itália e Portugal.
A génése da sua poética deve muito aos modernistas (Rimbaud, Baudelaire e, nos brasileiros, Oswaldo de Andrade).
Isso afastou-o um pouco dos círculos da geração de 45 - Carlos Drumond de Andrade, João Cabral. Por isso, o seu "reconhecimento" é mais tardio.

Tem uma relação única com a língua e com o mundo. Leio na Introdução desta Antologia: "Desobedece ao modo e recria o mundo concreto à sua maneira".

Será um prazer partilhá-lo até pq em Portugal é difícil encontrá-lo

bj

5:26 da tarde  
Blogger Luis Oliveira said...

Lilly

O mp3 do tango não abre nunca.
Porquê?
Bj

6:01 da tarde  
Blogger Lilly Rose said...

não sei luís, vou ver... :)

6:22 da tarde  
Blogger O'Sanji said...

Lilly,
Vai ver:
http://www.releituras.com/manoeldebarros_bio.asp
Beijos

11:00 da tarde  
Blogger O'Sanji said...

E, já agora, este:
http://www.fmb.org.br/
;)

11:05 da tarde  
Blogger O'Sanji said...

E olha isto tão lindo:

VI

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

(do Livro das Ignorãnças)

11:08 da tarde  
Blogger Lilly Rose said...

O'Sanji, isto é mesmo um grande sorriso :))))))))))))))))))))))

obrigada

12:53 da manhã  
Blogger Rui Diniz Monteiro said...

Lilly, fez-me lembrar o escritor Ramón Gómez de la Serna e as suas Greguerías (Assírio e Alvim) que não têm, aliás, a intensidade poética de Manoel de Barros. Mas penso que não estão afastados. Veja-se:
"O lápis só escreve as sombras das palavras"; ou
"A gaivota rema ao voar"; ou ainda
"Na noite gelada cicatrizam todos os charcos"

5:48 da tarde  
Blogger Lilly Rose said...

Rui, "a poesia é um encontro de improváveis ", dizia o Rimbaud. e estes poetas são fiéis ao conceito.

1:29 da tarde  

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