Milagrar um poeta
Eu nunca tinha ouvido falar de Corumbá. Mas ontem houve alguém que disse: vivo em Corumbá. E mais alguém disse: Manoel de Barros não é de Corumbá? E foi assim, por causa de Corumbá, que eu conheci um poeta novo. Por isso e porque existem pessoas muito bem informadas.
Quem o conheceu diz que ele é mesmo novo. Tem 89 anos mas desde os 17 que inventa palavras. Digo isto porque me passaram para a mão uma antologia que tem este nome: "Tudo o que não invento é falso". Para que as palavras sejam verdadeiras, o poeta inventa-as. Ele inventou a palavra Milagrar. que é verdadeira nas seguintes aplicações:
Quem o conheceu diz que ele é mesmo novo. Tem 89 anos mas desde os 17 que inventa palavras. Digo isto porque me passaram para a mão uma antologia que tem este nome: "Tudo o que não invento é falso". Para que as palavras sejam verdadeiras, o poeta inventa-as. Ele inventou a palavra Milagrar. que é verdadeira nas seguintes aplicações:
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam
a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)
Acho que vou transcrever outros poemas de Manoel de Barros, ou será que já o conhecem?


10 Comments:
Estás intimada a partilhá-los conosco!
Nuncaouvi falar deste poeta mas estou a adorar!
CSD
Claúdia, é brasileiro, nascido em 1917 (ainda vive!)
Viveu em NY, Paris, Itália e Portugal.
A génése da sua poética deve muito aos modernistas (Rimbaud, Baudelaire e, nos brasileiros, Oswaldo de Andrade).
Isso afastou-o um pouco dos círculos da geração de 45 - Carlos Drumond de Andrade, João Cabral. Por isso, o seu "reconhecimento" é mais tardio.
Tem uma relação única com a língua e com o mundo. Leio na Introdução desta Antologia: "Desobedece ao modo e recria o mundo concreto à sua maneira".
Será um prazer partilhá-lo até pq em Portugal é difícil encontrá-lo
bj
Lilly
O mp3 do tango não abre nunca.
Porquê?
Bj
não sei luís, vou ver... :)
Lilly,
Vai ver:
http://www.releituras.com/manoeldebarros_bio.asp
Beijos
E, já agora, este:
http://www.fmb.org.br/
;)
E olha isto tão lindo:
VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.
(do Livro das Ignorãnças)
O'Sanji, isto é mesmo um grande sorriso :))))))))))))))))))))))
obrigada
Lilly, fez-me lembrar o escritor Ramón Gómez de la Serna e as suas Greguerías (Assírio e Alvim) que não têm, aliás, a intensidade poética de Manoel de Barros. Mas penso que não estão afastados. Veja-se:
"O lápis só escreve as sombras das palavras"; ou
"A gaivota rema ao voar"; ou ainda
"Na noite gelada cicatrizam todos os charcos"
Rui, "a poesia é um encontro de improváveis ", dizia o Rimbaud. e estes poetas são fiéis ao conceito.
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