quarta-feira, setembro 21, 2005



Ando a arrastar o teu coração pela trela. No início cheguei a pegar nele e a erguê-lo como se fosse um troféu. Agora já não me deixarias fazê-lo. e ainda bem.

Eu vou à frente decidida. Tenho uma longa cana sobre o ombro e na extremidade desta está presa uma corda que o agarra. Está branco o teu coração. E as batidas estão fracas.

Um traço negro acentua-lhe o perfil de coração. Quando me viro para trás de repente, parece-me um actor de cinema mudo. Num filme a preto e branco, sem som, (podemos esqueçer o pianista), ele personifica o sofrimento. É muito expressiva a forma como se inclina num quase desíquilibrio.

Nos tempos em que erguia o teu coração, eu andava inchada. Tão inchada que não se viam os meus olhos. Só tinha braços. E depois, aquele vestido azul, que fazia balão. Podia ter rebentado!

Antes disso houve o dia em que o agarrei. Eu ía pela rua e uma chuva de corações veio ao meu encontro. Foi quase natural o movimento que me levou a pegar naquele e em mais nenhum outro coração. Ia na direcção do meu peito, estendi as mãos para me proteger.

Eram vinte e um os corações. Eram de todas as cores. Quatro eram cor de rosa, e o maior destes era tão claro que parecia transparente. Ficaram a flutuar sobre a minha cabeça. Eram leves. Naturalmente o vento levou-os.

Diria que três eram muito tortos, gatafunhos de coração adultos. Dois, aqueles, eram quase setas! Mas a maioria eram corações normais. Não posso esquecer, é claro, o que era sinistro: vermelho escuro, cor de sangue, voava encaixado num quadrado cinzento. Parecia de chumbo e quase me caía aos pés. Recuei. E por isso vi-te chegar.

Surpreendeste-me tanto que te apertei com força. Depois abri as mãos. Gostei que não te fosses embora. Eras um coração com forma de sorriso que esvoaçava à minha volta.

De tempos a tempos perdias-te. Comprei uma vara e uma corda.

Não sei se entristeceste lentamente ou se essa linha negra apareceu numa noite. Não quis fazer-te mal.

Estamos numa descida e mesmo assim tenho que puxar por ti. Posso gritar, pedir para que reboles, desesperada por te ver sem asas.

Ando a arrastar o teu coração pela trela. Às vezes olho para trás de repente e vejo-te roer a corda.

Se o teu coração fugir e se condensar numa nuvem. se ele chover sobre outra mulher. se ela te agarrar para se proteger. quando ela te erguer, eu vou soprar. para que caias logo e nunca te arrastes. para que me vejas. gatafunho de cana e corda apagado. apenas peixe pescador de um só coração. sorrindo ao coração do teu coração. deixando-o conduzir-me.

9 Comments:

Blogger MJ said...

Lindo!
abraço,Lilly Rose.

10:29 da manhã  
Blogger Claudia Sousa Dias said...

Adorei, Lilly!

"L'amour est un oiseau rebelle

Que nul ne peut aprivoiser..."


in "Habanera" de "Carmen" (Georges Bizet)

CSD

2:03 da tarde  
Blogger mfc said...

A determinação do empolgamento amoroso leva-nos a querermos aprisionar o objecto do desejo...é um sonho que não tem reflexo na realidade.
Mas sonhar é bom e tu escreves uns sonhos de uns textos!

4:26 da tarde  
Blogger fernando macedo said...

este texto apenas confirma outras impressões anteriores: a certeza que aqui quando o registo muda, quando somos confrontados com a surpresa, somos sempre confrontados com o prazer de ler... e assim que pulem livres os corações.

5:37 da tarde  
Blogger Rui Diniz Monteiro said...

Este texto não parece triste, mas fez descer sobre mim uma bruma leve e melancólica. Porquê? Não sei. Claro que mais uma vez este texto, como outros anteriores teus, acorda em mim ecos desconhecidos em recantos de beleza longínquos; às vezes dói, mas é uma dor de nascimento, não de morte. Ah, Lilly, como é possível saber-se escrever tão bem?

10:10 da tarde  
Blogger GNM said...

Gostei de te ler!
Nunca tinha ouvido falar de Ekin Caglar... mas acho a musica fantástica.

Continua a sorrir!

1:50 da manhã  
Blogger Márcia Maia said...

mas esse conduzir preso a uma corda, decerto o matará: o coração.

beijo de comecinho de primavera, Lilly.

8:43 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Sim.. cordas de violino, que prendam e encantem, como quem não sabe que não pode fugir... agarrar um coração, para que o meu permaneça vivo...

até já, Lilly..

10:29 da manhã  
Blogger Mónica said...

muito bonita a imagem do coração amarrado a uma cana!
eu não era capaz de tanto! ou sou? é isso que ando a fazer? diz-me! não, ele nem sequer se deixa abraçar...

6:36 da tarde  

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