segunda-feira, agosto 29, 2005

Raíz

Léo Ferré declama Les assis de Arthur Rimbaud. Ferré pegou num gravador e em sua casa gravou dezenas e dezenas de poemas de Rimbaud e de Verlaine. por vezes, musicava os poemas. Só depois da sua morte foram encontradas as gravações que não são de grande qualidade técnica. Imaginá-lo nesses momentos tão íntimos enternece-me.











Noirs de loupes, grêlés, les yeux cerclés de bagues

Vertes, leurs doigts boulus crispés à leurs fémurs,
Le sinciput plaqué de hargnosités vagues
Comme les floraisons lépreuses des vieux murs ;

Ils ont greffé dans des amours épileptiques
Leur fantasque ossature aux grands squelettes noirs
De leurs chaises ; leurs pieds aux barreaux rachitiques
S'entrelacent pour les matins et pour les soirs !

Ces vieillards ont toujours fait tresse avec leurs sièges,
Sentant les soleils vifs percaliser leur peau,
Ou, les yeux à la vitre où se fanent les neiges,
Tremblant du tremblement douloureux du crapaud.

Et les Sièges leur ont des bontés : culottée
De brun, la paille cède aux angles de leurs reins ;
L'âme des vieux soleils s'allume, emmaillotée
Dans ces tresses d'épis où fermentaient les grains.

Et les Assis, genoux aux dents, verts pianistes,
Les dix doigts sous leur siège aux rumeurs de tambour,
S'écoutent clapoter des barcarolles tristes,
Et leurs caboches vont dans des roulis d'amour.

- Oh ! ne les faites pas lever ! C'est le naufrage...
Ils surgissent, grondant comme des chats giflés,
Ouvrant lentement leurs omoplates, ô rage !
Tout leur pantalon bouffe à leurs reins boursouflés.

Et vous les écoutez, cognant leurs têtes chauves,
Aux murs sombres, plaquant et plaquant leurs pieds tors,
Et leurs boutons d'habit sont des prunelles fauves
Qui vous accrochent l'oeil du fond des corridors !

Puis ils ont une main invisible qui tue :
Au retour, leur regard filtre ce venin noir
Qui charge l'oeil souffrant de la chienne battue,
Et vous suez, pris dans un atroce entonnoir.

Rassis, les poings noyés dans des manchettes sales,
Ils songent à ceux-là qui les ont fait lever
Et, de l'aurore au soir, des grappes d'amygdales
Sous leurs mentons chétifs s'agitent à crever.

Quand l'austère sommeil a baissé leurs visières,
Ils rêvent sur leur bras de sièges fécondés,
De vrais petits amours de chaises en lisière
Par lesquelles de fiers bureaux seront bordés ;

Des fleurs d'encre crachant des pollens en virgule
Les bercent, le long des calices accroupis
Tels qu'au fil des glaïeuls le vol des libellules
- Et leur membre s'agace à des barbes d'épis.


sábado, agosto 27, 2005



Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!
Jorge de Sena


espantou-me encontrar-te assim tão de passagem na tua própria casa
e que houvesse sempre uma pequena luz (talvez benzida) a mantê-la iluminada
não obstante, pensei amar-te (libertar-te) da ponta dos dedos às ideias mais abstractas

a realidade revelou um corpo-defeito desfeito
que eu tocava com nomes pele água panos ternos jeitos
e um silêncio encalhado que me inspirava sonatas e me levava a beijar-te por falta de
palavras

decidi então assim: nunca mais te verei.
vais ser: o rasto dos aviões no céu, idênticos a si mesmos, não singulares.
serei: se quiseres ainda: o mamilo que toca piano. ou seja, nada que exista.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Há muitos muitos minutos






















Há muitos muitos minutos a terra ardeu e uma mão que quis ser salvadora foi consumida pelo fogo.

Sabemos que a alguém vai acontecer voltar várias vezes àquele lugar, sentar-se, e com a única mão sã tactear o solo. Um dia calçará uma luva e começará a explorar as brechas imaginando uma aventura até ao centro da terra. Percorrerá 6400 quilómetros. No regresso, ali pela camada líquida de ferro e níquel (e um por cento de oiro), será encontrado. nu e louco.


a família receberá uma caixa contendo uma medalha de louvor e uma luva.
no minuto seguinte a terra voltará a arder.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Vida a céu aberto



Tenho uma casa com escadas que descem até ao mar. Foi construída por um martelo sem mestre. É um espaço temporário que quero que venhas ocupar comigo.

Mas este, Albatroz, é um convite à arte. e saberás que ela não pode existir sem embriaguez. É a embriaguez que intensifica a excitabilidade da máquina inteira. Quero-te embriagado de excitação sexual_ de festa_ de rivalidade_ de crueldade_ de vontade_ de empatia_ de afeição. Pleno e intenso. para me transformares em arte. porque a arte é uma conversão ao prazer.

Se aceitares, e eu digo, se aceitares,
viver assim a céu aberto
sobe as escadas

já estás do lado do mar.

domingo, agosto 07, 2005

rosa


Um dia disseste abre as pernas, quero ver-te o sexo. Os joelhos comprimiram-se um pouco mas depois foram caindo, caindo. Acho que queria exibi-lo e não sabia. Começaste por olhar, olhar muito, ou não fosse a observação o primeiro passo de todos os métodos. Depois tocaste com a ponta de um dedo. Foi nessa altura que comentaste que parecia uma rosa. acrescentaste dedos que pianavam, as mãos inteiras que abriam exploravam sentiam. A rosa ficou com as pétalas cristalizadas. Talvez comovido, beijaste-as, uma e depois a outra, ternamente. E repetiste o movimento. Quando pequenas gotas de prazer começaram a escorrer, lambeste-as. Era mel. Então a rosa amotinou-se, ordenou que a sugasses, que a sugasses. E depois imobilizou enquanto o resto do corpo era varrido por ondas que vinham de longe, de outros nervos e orgãos. Concluiste que a rosa era apenas a cratera do vulcão. e que continuavas a não conhecer o epicentro. _____mas eu sei que tu sabes que a ciência evolui.

O rir dos lábios belos
















Il faut que ma femme me rapelle que je suis tellement amoureux.
Carta de Antoine de Saint Exupéry a Consuelo de Saint Exupéry



O rir dos lábios belos. São essas palavras de Rimbaud que repetes para me explicares a tua presença.

Mas agora é tarde no dia e ainda estás longe. Sentar-me-ei no alpendre à tua espera e talvez apareças quando eu já tiver adormecido. Que delícia pensar que neste momento todos os teus passos te aproximam da nossa casa.

Saboreio as viagens que fazes porque sempre te reencontro belo como uma árvore. às vezes, é claro, deixas-te queimar pela neve. mas chega sempre o dia em que te sentas na minha mesa, prisioneiro dos meus olhos, ao alcance dos meus gestos.

O amor é para ti uma coisa natural sobre a qual não se deve falar muito. nunca são muitas as palavras, e raramente são tuas. os poetas já inventaram quase tudo. talvez, sobre o amor. Mas falas tão pouco de ti, e quando partes levas contigo todo o teu ser, tão completamente, tão totalmente. não te esqueces de nenhuma parcela de ti, em nenhum lugar.

Adivinho pois, creio. Creio que a ternura que abandonas de cada vez que te afastas, tem cada vez mais o valor de um tesouro e que um sentimento de mágoa vai crescendo em ti, no momento em que o enterras debaixo da terra. A minha casa é aqui dentro de ti, a minha fonte são os teus olhos, só eles me saciam, dizes antes de partir. e no meio da noite, abraças-me, apertas-me com ternura como se eu fosse um pequeno animal doméstico, e sussuras não sei ser teu, perdoa-me.

Nunca sei muito bem como me arrumar em ti ou na cómoda dos meus pensamentos. Ofereço-te o rir dos meus lábios, enceno a tua fantasia. para que escaves sempre e revolvida a terra me encontres.
e durante alguns dias em muitos anos, vamos vivendo. intensamente. nunca em paz. para sempre.