domingo, julho 24, 2005

Doroteia








O Sol oprime a cidade com a sua terrível luz a prumo; a areia deslumbra e o mar resplende.
in Charles Baudelaire, O Spleen de Paris, XXV A Bela Doroteia


Apetece-me entorpecer, dormir a sesta. ou nada disso, e caminhar numa rua desta cidade ofuscante, assim muito segura no meu vestido quase transparente, que vai permanecer cristalino e engomado, sobre uma pele que se mantém serena e perfumada, sentindo o calor mas fazendo de conta que não. Fazendo de conta que me dirijo a um lugar determinado, ali ao pé da praia, naquela esquina entre os Correios e o café que está sempre cheio à noitinha, não agora. porque agora todos dormem a sesta no fresco dos quartos ou sobre a areia escaldante. Menos tu. que caminhas por outra rua desta cidade ofuscante, assim muito seguro nas tuas vestes de linho azul claro, que vão permanecer incólumes ao respirar da tua pele sob o céu da mesma cor. E debaixo desse céu, ouvindo o marulhar do mar, cruzamo-nos por acaso se o acaso existir, e paramos. E então eu abro a minha sombrinha e coamos a luz daquele lugar, ficando os dois pintados de reflexos sanguíneos. Por cada dez inspirações profundas, a brisa vai varrer-nos a compostura. O vestido esvoaça, os corpos estremecem, a cidade avança no tempo. mas nós prolongamos a admiração. e sem pressa aguardamos a maturidade. Um dia a roupa vai ficar manchada. e há-de ser bom.

ou não. podemos ser surpreendidos por um tsunami. despedaçado pelo tempo, embriagas-te. com vinho, palavras, premências de prazer e depois depois depois. depois sentimos um tremendo fardo. e uma vaga surge do que parece nada e leva-te. e eu aninho-me na linha da rebentação com a minha sombrinha. e espero por ti para sempre.

ou alguém bate à porta e percebo que a cidade despertou.

7 Comments:

Blogger ananda said...

Só para deixar um olá e um abraço bem apertado!
Bjs! :D

10:56 da manhã  
Blogger jp(JoanaPestana) said...

ainda prefiro a espera sobre a sombrinha a ver o mar...

9:27 da tarde  
Blogger Rui Diniz Monteiro said...

O barulho e o frenesim lá fora. De repente apenas o teu texto e o som da música a entrelaçarem-se e a criarem uma bolha de beleza no tempo e no espaço.
Depois, outra vez o ruído. Depois: este modo de dizer-te obrigado.

11:14 da manhã  
Blogger Rui Diniz Monteiro said...

Ah, e a foto: uma imagem, um espelho do texto... de mim dentro do teu texto?

11:17 da manhã  
Blogger Márcia Maia said...

ou não. porque já despertara muito antes, comtemplando o encontro sob os reflexos sanguíneos da sombrinha...

um beijo daqui, onde o inverno tem cara de verão,

Márcia

tábua de marés e mudança de ventos

2:39 da tarde  
Blogger Irene said...

Muito bonito. Triste e doce.

11:18 da manhã  
Blogger joaninha said...

Depois de uns dias de intervalo, voltei para ler os “bouquets” de palavras lindas, que formam textos belos e repletos de torrentes de sentimentos profundos que tanto me tocam…simplesmente belo, com uma música de fundo não menos bela… e com os olhos no monte que tenho em frente, vejo o mar… e nele a saudade que me envolve…
Um beijo!

12:15 da tarde  

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