quinta-feira, julho 14, 2005

Canção do Adeus






















O Pierre era gay mas eu não sabia. Pouco importa, apaixonei-me por ele e deixei-o ensinar-me o que podia. Ensinou-me Mahler.
O Pierre era judeu mas eu não sabia. traço de ainda menor interesse, não fosse ele só ter mãe, porque avós e tios haviam sido mortos por nazis, e não fosse o pai ter partido por não aguentar o porta-destroços que era a mulher.
À míngua de sexo, não faltavam palavras. e hoje voltou o eco daquela voz grave, quase desencarnada.
Da ignorância passei ao conhecimento e deste novamente para a ignorância. uma ignorância lúcida, se isso existir. que é o que sentimos também quando lemos poesia chinesa, a moda na Viena de 1900.
E sempre Mahler. Mas depois da Canção da Terra, confesso, não quis ouvir mais nada. Um dia lemos juntos sobre o estado de espírito do músico enquanto compunha a Sinfonia. A morte da filha de seis anos, a profunda depressão. Devíamos ir ali pela Canção do Adeus, a última da peça. E então foi simples. Chorámos. Sei que começou no minuto 17. porque quando quero chorar, volto lá. e até ao minuto 31, tenho 14 minutos de lágrimas. minha catarse por todos os adeus que nem pude dizer. como ao Pierre. que nesse dia beijou pela primeira vez uma mulher.

5 Comments:

Blogger joaninha said...

Quando se ama, ama-se! Qualquer gesto de carinho é o mais belo poema de amor!...
Em cada texto há algo de tão belo, que não páro de admirar... cada foto é tão significativa, que não deixo de observar...Parabens! Um beijão

2:48 da tarde  
Blogger r.e. said...

sim, a catarse é mais intensa quando acompanhada por alma que a olhe e a devolva ao sepulcro das emoções incontroláveis. o mahler é um excelente veículo, entre outras palavras de morte feitas silêncios ou acordes metálicos. mahler e um beijo, como só a música pode espelhar o afecto. J.

8:40 da tarde  
Blogger Rui Diniz Monteiro said...

Foi hoje a primeira (de muitas mais vezes sem dúvida) que visito o teu belíssimo blog. Devia sentir inveja. Mas é que (concordo com a joaninha) não há um texto ou fotografia que não seja belo de doer, o que torna isso impossível. Parabéns!

11:51 da tarde  
Blogger Cleo said...

Belo esse choro cronometrado a que se retorna e a lembrança do beijo.
Tudo exala amor neste seu texto, não-perdido mas, a seu modo, vivido e denso.

Voltarei.

Cleo.

3:04 da tarde  
Blogger Márcia Maia said...

Mas sempre haverá Mahler. E o buquê de lembranças, sempre belas.

Um beijo daqui.

3:08 da tarde  

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