
e dez anos depois perguntas-me como o conheci e eu dou-te a versão de dez minutos.
todas as quintas corríamos demanhã. a ver se o coração rejuvenescia. e éramos sempre só. os dois.
acabámos a conversar, inicialmente sobre os factos diversos da vida, depois, sem querer, sobre pequenos nadas. ele parecia não compreender os seus medos e eu vivia convencida dos meus. foi fácil tornarmo-nos amigos.
às vezes seduzem-nos apenas porque temos vontade de ser seduzidos. apesar de raramente respeitarmos a vontade do outro de nos ser indiferente. mas ele, ele apreciou o meu alheamento, o sorriso na despedida. partíamos como quem tem para onde ir e não quer saber para onde o outro vai.
deixei que adivinhasse; eu era casada. nunca perguntou se era feliz nem ocultei sentimentos compostos de anos de ternura e de confiança, mesmo se, enfim, às vezes me estranhasse a morrer lentamente. ele já se tinha divorciado e vivia mais uma dessas fases de desencanto. divertíamo-nos entre tantas diferenças. meia dúzia de convicções distintas e mais umas tantas incertezas. mas eu, que era aprumada, parecia de repente caótica.
o tempo gaguejou. fomos os mesmos, estes, durante um longo período. e depois, quando partíamos para as nossas vidas, sorrindo, de tempos a tempos, em pequenos compassos, passámos a olhar para trás. pensava nele, o que faria naquele preciso momento, se alguém o abraçaria e quem, e com quanta doçura, e depois, depois esperava que ele fosse feliz e tentava ser feliz nos braços que me eram familiares, sabendo que não há gente feliz sem lágrimas.
não foi um casamento fácil, vivíamos com os olhos em futuros diferentes. mantivemo-nos juntos por uma qualquer espécie de bondade e por um laço raro de confiança. mas quando ele morreu, pensei que ia morrer também. de uma atroz solidão.
nunca mais corri, faltava-me força, física, anímica. tinha tonturas que me faziam recear sair à rua, ou olhar pela janela. arrastava-me de obrigação em obrigação desesperada com a fome de alegria nos olhos dos meus filhos.
um dia ele decidiu procurar-me. a primeira vez que telefonou, não reconheci a voz. depois, depois gemi a morte e desliguei.
quando aquela amiga me apareceu em pranto porque a filha, um acidente, o medo, se eu podia acompanhá-la, o hospital, se eu podia, eu pude. podemos sempre até ao limite do que tem de ser. e depois a pequena surpresa, ele era o cirurgião.
esperámos duas horas, tempo suficiente para temer muito, e eu, em compassos pequenos, cada vez maiores, temi por ele também. quando apareceu no fundo do corredor, olhos baixos, passos lentos, postura de fadiga, comecei a desejá-lo. naquele momento. que durou o tempo da distância que percorreu até nós.
entregou-nos palavras de conforto e a mim, prazer. prazer que se acentuou com aquela inquietação, quase pânico, quando me olhava.
ele inventou sem jeito uma maneira de me levar com ele. e novamente o fundo do corredor e naquele vão o rosto que eu beijei com vontade.
mas chorava muito ainda, e todos os dias. pelo que não estava preparada. digo-vos que amar muito já era possível, mas que amaria mal. o tempo gaguejava novamente.
foi preciso esperar até depois, pouco depois. que às vezes me parece que foi ontem.
e nós, duraremos quanto tempo? vamos amar-nos o suficiente para uma versão curta?