quinta-feira, junho 29, 2006

Para o caso de não sonhar com a password

Esqueci a password deste blog (eu sei, é muito mau sinal) pelo que o Antes que me deite só vai continuar enquanto o meu computador & Blogspot, que a têm gravada, me deixarem entrar sem me obrigar a digitar a senha de entrada!

E então é assim, muito obrigada a todos os que por aqui passaram este ano, a todos os que acompanharam esta experiência de palavras, imagens e sentidos, via a projecção de uma personalidade ambígua, a de Lilly Rose (e talvez a minha!)

Eu vou continuar por aí (ou por aqui, se sonhar com a palavra mágica). Por isso, este post também quer dizer "até já".

Quanto à Lilly, sei que não me vai perdoar! (mas heterónimos há muitos! ;)
No ANTE ET POST,
um velho novo desafio para vocês.
Vão lá espreitar!

terça-feira, junho 27, 2006

Quebra

Mas que mais se pode passar entre nós dois, Albert?

Amos Oz, O Mesmo Mar


Não se trata de mim e de outro homem, nem de si e de outra mulher, nem de qualquer outra relação entre duas pessoas. É mesmo consigo.
Muito obrigada pelo seu presente, foi muito gentil lembrar-se de mim, eu qual Carmen Miranda com o colar tropical ao pescoço. Também eu lhe trouxe um presente, um creme hidratante para tratar a sua pele de bébé. Deus nos livre de magoar alguém.

Mas quem se importaria, diga lá Albert, se de uma vez por todas você não gemesse? Geme tanto, credo! Não há nada que não lhe doa! O amor dói-lhe, a indiferença dói-lhe, dormir demais dói-lhe, acordar cedo dói-lhe. Eu sei, quer que a mamã ponha penso rápido. Mas não há mais penso rápido, agora só injecção num grande hospital.

No grande hospital, má criação é curada com agulha, não há beijinhos. No grande hospital, paranóia dá direito a quarto almofadado, não há passeios de avião que o livrem. Enfim, como Albert é grande, se achar que a enfermeira não gosta de si, insulta-se a enfermeira, despede-se a enfermeira. Mas Albert não sai do hospital.

O que é que resta? Um copo de leite frio, gordura a mais, potência a menos, você e eu, os seus, os meus. Farta de cuidados com as palavras. Afinal de contas nós somos o que somos, nem parceiros nem família. Nem inimigos. Você sossegado e eu tranquila.

Desculpe-me, Albert, não fique magoado, de repente tenho vontade de quebrar um copo. Aí está, assim.
Lamento. Perdoe-me. Eu apanho.
Não se incomode.

Ora, não apanho coisa nenhuma!

sábado, junho 10, 2006

Existir

Calvino dizia
saber poemas de cor é bom
porque os poemas fazem boa companhia

e porque se deve treinar a memória

Os poemas são úteis.

Cunningham diz
há pessoas que são mais que úteis
e ser mais que útil é ser belo.

como alguns poemas.

Um outro homem dizia que saber de cor é trazer no coração. (by) heart, (par) coeur

transportamos a memória no centro do nosso corpo. poemas, às vezes.
que podem ser melhor companhia que uma pessoa mais que útil.
ou não (depende dos dias, e do número de dias sem pessoas)

Calvino também dizia que é importante saber fazer cálculos simples à mão, sem calculadora
por exemplo, saber fazer divisões
a cabeça calcula o que a mão vai traçando

é complicado existir

Finalmente, ele que via cidades invisíveis a nascer dos sonhos das cidades invisíveis, concluia da absoluta necessidade de saber que tudo o que temos podemos perder a seguir
numa nuvem de fumo.

método de sobrevivência: estar junto
instrumento: a música
lugar: a praça
unidade: seres úteis e mais que úteis, belos, que transportem dentro de si o útil e o mais que útil, belo

abrir a vida à folia.
amar

ruído: fazer o quê com o menos que útil?
não tenho ideias fixas. (logo, como ele, não poderia ser político)

tenho instintos. querer adiar o inabitar
decidi decorar poemas.

Começando:
Comigo me desavim
minha senhora
de mim

Depois continuo. No livro da Maria Teresa Horta.
por exemplo

adio muito existir

terça-feira, junho 06, 2006

Desejo

desliza a tua mão pelo meu corpo
tranquiliza a penugem clara que se eriça

volta-me, enrola-te, sossega

sexta-feira, junho 02, 2006

Uma cidade arrasada honra os agressores elevando estátuas.

Podemos destruir em nome da paz?
Podemos destruir em nome do amor?


quarta-feira, maio 31, 2006

Memória das sombras

Meu amor,

Gosto de pensar que o teu corpo nasce nas minhas mãos tão rapidamente como uma frase que escrevo.

O teu corpo e as palavras fazem-me sair de casa, mergulhar na floresta, perder-me em sentidos, até que a angústia é tanta que só posso querer encontrar o caminho de regresso. Se te agarro com força, querido, é por sentir medo. Há sempre um momento, mesmo antes do sobressalto no meu útero, em que a tua boca incha e eu rebento, em que as tuas mãos se abrem, os dedos despontam, e eu quase morro. Voltar a casa, amor, voltar a mim, à sala de todos os partos, é querer que cresças mais. Busco as árvores que marquei a giz e às vezes chego insana e salva.

Um dia há muitos anos encontramo-nos, lembras-te? Eu entrei pelo lado direito do mar, a Norte do Equador, tu entraste pelo outro lado, mais a Sul. Atravessávamos meridianos sempre que nos embriagávamos mas nesse dia aproximaste-te de mim como se tivesses um radar e pudesses saber que eu existia. E depois disseste que nadavas para não morrer.

É possível que qualquer um de nós já só esteja meio vivo, seja apenas meio humano, e que em vez de pés arrastemos caudas, e que junto aos pulmões tenham crescido guelras. Eu às vezes perco o coração e o teu soçobra a cada instante. Mas agora, amor, agora que a água e o ar que respiramos nos sopram vida, quero que sejas tudo o que inventar, deixa-me pegar em mim e acender-te. Agora que sob a acção da luz mudo de cor, deixa-me transformar-me e ser tu já sem memória!

A tua.

sábado, maio 27, 2006


O dia acaba por passar completamente, para sempre,
e não houve canção, seja de que espécie for.
Há aqui um problema.

Samuel Beckett, Dias Felizes


Todas as manhãs me perguntas por que não chega a canção.
Os lábios incham, fecham-se os olhos
outras vezes sangram, choram
e sabe-se lá porquê a canção não sai.

Claro que ouço melodias!
Vêm de longe, de dentro, brotam no útero, onde a vida começa
enchem corpos de bonecas, caderninhos, soltam-se de vestidos com folhos
enrolam-se em colares de pérolas, alianças, tacões altos, unhas falsas
atravessam corredores silenciosos, incendeiam écrans
metem-se debaixo das mesas, sobem à cabeceira da cama

e desaparecem
sabe-se lá porquê.

Porque a altura não é esta.



Mas procura no meu corpo.

Às vezes a canção não precisa de mim, corre solta
está à superficie da pele, cai das pontas dos cabelos
molha-me a fronte, escorre dos mamilos,
e eu tento agarrá-la, agarrá-la
para te oferecer mãos cheias de versos de amor
sentes? sentes?
o meu espelho às vezes não precisa de mim

Apanha-a tu.

Porque a altura é esta.

terça-feira, maio 23, 2006

Tudo o que passa, fica. É isso a nostalgia?

sábado, maio 20, 2006

Verão 96-2006

Lylia Cornelia


o mar é bêbedo e ele é o teu corpo
quando te embriagas revoltas-te
e eu mergulho nas tuas ondas bêbedas e zangadas

oh lá vem mais outra
outra onda que me cobre pernas, ventre, cabeça
no início brincava contigo
tu vinhas e eu fugia
e só às vezes, às vezes
me acariciavas
molhavas
os pés
o calcanhar em fuga
enterrava-se na areia ensopada
mesmo cega já te reconheço
onda orgulhosa
de vaga em vaga
sucessivas marés
cresceram-me algas

um dia, Verão 96-2006
à espera de qualquer coisa
sempre diferente
um dia, entrar no mar
estender-me, nadar
desaparecer sem pânico

olhar para trás, para o mar
à espera de voltar a ver-me sair do mar
esperar as cheias

um dia apareço entre as rochas
pairo acima das casas
sobrevoo o nosso jardim
um dia recolhes-me
comes-me
eu já peixe
sem escama

quinta-feira, maio 11, 2006

pelo canto do olho assisto ao canto do teu canto do olho
uma melodia frágil, mas curiosa

de mim

e então sou uma orquestra desafinada
imagina
membros violinos, pés oboés, a coluna uma flauta
pestanas de harpa, coração tambor, e a língua pratos

pelo teu canto do olho assisto ao meu ensaio sem maestro
ruidoso, mas inaudível

infeliz

às vezes peço pelo canto do olho
que me libertes do teu olhar

que o teu olhar me faz
cego,
respondes que esse canto não me determina

mas em qualquer esquina, ali ou a milhares de quilómetros
pelo canto do olho assisto ao canto do teu canto do olho

e esse olhar desfaz, amor, desfaz







(assobio: se me libertares não exageres na indiferença)

terça-feira, maio 09, 2006

Tine Drefahl

ando a pensar deitar-me fora. pegar em mim e sacudir-me até quebrar. partir-me de propósito. embrulhar-me, cacos, e arrumar-me no fundo da cave. seria bom não precisar de mim por uns tempos!
sei que devo encontrar-me antes de me deitar fora. parece-me lógico.
se me conseguir encontrar, e é provável que leve algum tempo, não pretendo condenar-me. condenar-me a mim própria é inútil, o absolutamente eu não se altera.
se um dia eu pensar que morri por me ter deitado fora, quando morrer de facto, ninguém vai reparar, não haverá notícia. e isso tranquiliza-me.
deitar-me fora. porque não sou capaz de contemplar o que temo. nem aceitar o que me dá prazer mas não presta.

sexta-feira, abril 28, 2006

Famafest 2006

Illustration by Russell Mills for A SAMUEL BECKETT READER Pan Books 1983.gif

The farther he goes the more good it does me. I don’t want philosophies, tracts, dogmas, creeds, ways out, truths, answers, nothing from the bargain basement. He is the most courageous, remorseless writer going and the more he grinds my nose in the shit the more I am grateful to him.
He’s not f---ing me about, he’s not leading me up any garden path, he’s not slipping me a wink, he’s not flogging me a remedy or a path or a revelation or a basinful of breadcrumbs, he’s not selling me anything I don’t want to buy — he doesn’t give a bollock whether I buy or not — he hasn’t got his hand over his heart. Well, I’ll buy his goods, hook, line and sinker, because he leaves no stone unturned and no maggot lonely. He brings forth a body of beauty. His work is beautiful.
-- HAROLD PINTER


Estes são apenas dois dos escritores que o Famafest vai homenagear este ano. De 28 de Abril a 6 de Maio, em Famalicão. Cinema e literatura. Mas devo dizer ainda..., que o Lauro António é o director do Famafest, que este é um dos melhores festivais internacionais de cinema, que a programação deste ano é absolutamente extraordinária porque inclui 19 inéditos de peças de Beckett adaptadas ao cinema e cerca de 20 filmes escritos, representados ou realizados por Harold Pinter, que haverá um ciclo Charles Dickens e outro ciclo Agatha Christie, que existem 36 obras a concurso oriundas de mais de 20 países, e animação para a pequenada e ... eu deveria dizer ainda mais, mas digo depois de passar por lá!

Links 1, 2, 3, 4 e 5.

quarta-feira, abril 26, 2006

lições de francês e de cimento


Lylia Cornelia

Em casa da minha avó todos se sentavam à mesma mesa. Não havia patrões e empregados, adultos e crianças, homens e mulheres. Havia todos à mesa! porque todos trabalhavam.

Eu era a mais nova e tinha um estatuto um bocado diferente porque também estudava, e acho que todos estavam convencidos de que eu ia estudar muito e por muito tempo.
Pelo menos era assim que eu sentia que o Narciso pensava.

O Narciso tinha os olhos verdes mais bonitos que eu jamais vira e era moreno e no Verão tirava a camisola e ficava em tronco nú. Era tímido e se bem me lembro baixava muitas vezes os olhos quando falava. Eu sonhava que ele me amava e amava-o contra todas as barreiras sociais dramas injustiças azares misérias que inventava. Os meios olhares intensos e ternos davam-me certezas.

Para poder estar com ele interessei-me por cimento, areia, água, enxada, como fazer um círculo no meio e ir misturando os ingredientes da massa que colava os tijolos nos muros que era necessário construir por ali, galinheiro, curral, eira, pátio, quintal e fim do quintal, e o outro quintal.

E depois íamos trocando palavras, cautelosamente. Ovídio, poeira, menina não se suje, entrei na desfolhada, saiu-lhe o milho-rei?, uvas e ramadas, vinho americano, a massa tem água a mais, já me distraí!, vou buscar bebidas. Um dia ele pediu-me que o ensinasse a falar francês. A irmã, que tinha ido apanhar laranjas para a Bélgica, acabara colhendo noivo e bilhete de ida sem volta. E o Narciso queria fazer boa figura no casório.

Lições de cimento e de francês. que duraram algumas semanas. Só isso. mas nunca mais esqueci.

sugestão



Sugestão: abrir armários em Serralves.

sábado, abril 22, 2006



THERE IS NO ONE TO PLEASE BUT... ?

terça-feira, abril 18, 2006

Borofsky
God on the floor



e quando morremos, deus vai para onde?
é enterrado connosco
ou fica à superfície, colado aos pés dos que nos velam?

por que é ele invisível? para não tropeçarmos? ou para cair(mos) mais depressa?


a sua existência é uma ilusão |lógica|
|crêr em ilusões é negar a existência de deus?|

como dizer?
a vida
ACABOU


e é tudo
e é nada

quinta-feira, abril 06, 2006

V Edição do concurso O Escritor Famoso - Actos de Cinema

CONVITE


PARTICIPA COM UM TEXTO DA TUA AUTORIA

Organização: Divas & Contrabaixos
Arquivo e Galeria: O Escritor Famoso


quinta-feira, março 30, 2006

Post it

terça-feira, março 28, 2006

fala às figuras na tela II


enquanto me ocupo do vermelho e do negro, ou da busca da medida certa das trevas no triângulo difuso que vos encurrala, mantenham-se imóveis nesse movimento
permaneçam como que suspensos. segura-te em pontas e protege-a. até que eu volte para vos aclarar

guardo o lamento de não poder parar o tempo, ou colocar-vos numa redoma de algodão azul, quando vos transformais em meus filhos e devo partir
já conhecedora da medida das trevas, do medo que vos domina na solidão dessa tela

(comoves-me quando a envolves nos braços. abres as asas como o pássaro que protege a ninhada. como se a tua fragilidade pudesse suportar a loucura e o pânico)

segunda-feira, março 27, 2006

fala à figura na tela


I
ouvirás o som? o que te sussura o vento?
traço um amo do desejo ou faço do desejo o amo?
ou revelo um mensageiro, aio do deus natureza, por detrás da tua cama?
crio-te sonhos tocados por um invisível halo? adorno amantes com falos?
tingindo-te adormecida, farás meu o privilégio de te ver estremecer
olhando-te de fugida?



II
sentirás o odor que exalas? tintas, pigmentos e química?
ou a chama do pincel eleva o que te cerca
e de uma forma mágica cheiras musgo, sono e breu?
todas fragâncias que avivo pressentindo o teu calor



III
amiga sonhada, dotando-te de beleza
despojando-te de enfeites
deixaste verter em fio
uma calda de agridoce luxúria
inalo-te, besunto-me
debruçado ou afastado de ti



IV
sentes a angústia da inatingível perfeição que pariste em mim?

vergado ao cuidado que exiges
à minúcia do mestre que te criou



V
tudo isto cabe no olhar intenso que te dedico
tudo está contido na mão que pouso lentamente na tela

és bela

quarta-feira, março 22, 2006

fala ao espelho

Sokolsky

diz-me como é a morte que vai ser minha
Eduarda Dionísio

I.
tu que me me captas distraída durante o dia e assistes ao meu cansaço nas horas mais improváveis
tu que recebes olhares espantados, esborratados e vapor
que persegues formas e ângulos meus que desconheço
diz-me como é a morte que vai ser minha
que cor terá a minha pele
cobrirá um manto meu rosto
pescoço torso

usarei azul, lilás ou branco
cetim ou tosco pano
verás sobre mim um anjo?
ou serão minhas pálpebras tingidas de negro
e meus braços pousados em cruz
para que ao posar nesta sala sem luz
os meus visitantes se encham de medo?
levarei comigo esta memória de ti e dos que me amaram face a ti
e esta memória de mim e dos que amei sem testemunhas?
poderei atravessar-te e dentro de ti ver-me e chorar-me
e dentro de ti vê-los chorarem-me?
ou só tu guardarás meus gestos e silêncios
nesse fundo reflexo sem consciência
oco como a essência dos mortos
justo com os despedidos da vida?






II.
espelho meu
nasceste herança e assim serás
ilumina com delicadeza aquela que te receber
absorve o seu olhar, respira o seu bafo
que o seu vapor te beije e te lustre
esquece a morte que foi minha

domingo, março 19, 2006


e dez anos depois perguntas-me como o conheci e eu dou-te a versão de dez minutos.

todas as quintas corríamos demanhã. a ver se o coração rejuvenescia. e éramos sempre só. os dois.
acabámos a conversar, inicialmente sobre os factos diversos da vida, depois, sem querer, sobre pequenos nadas. ele parecia não compreender os seus medos e eu vivia convencida dos meus. foi fácil tornarmo-nos amigos.
às vezes seduzem-nos apenas porque temos vontade de ser seduzidos. apesar de raramente respeitarmos a vontade do outro de nos ser indiferente. mas ele, ele apreciou o meu alheamento, o sorriso na despedida. partíamos como quem tem para onde ir e não quer saber para onde o outro vai.
deixei que adivinhasse; eu era casada. nunca perguntou se era feliz nem ocultei sentimentos compostos de anos de ternura e de confiança, mesmo se, enfim, às vezes me estranhasse a morrer lentamente. ele já se tinha divorciado e vivia mais uma dessas fases de desencanto. divertíamo-nos entre tantas diferenças. meia dúzia de convicções distintas e mais umas tantas incertezas. mas eu, que era aprumada, parecia de repente caótica.
o tempo gaguejou. fomos os mesmos, estes, durante um longo período. e depois, quando partíamos para as nossas vidas, sorrindo, de tempos a tempos, em pequenos compassos, passámos a olhar para trás. pensava nele, o que faria naquele preciso momento, se alguém o abraçaria e quem, e com quanta doçura, e depois, depois esperava que ele fosse feliz e tentava ser feliz nos braços que me eram familiares, sabendo que não há gente feliz sem lágrimas.

não foi um casamento fácil, vivíamos com os olhos em futuros diferentes. mantivemo-nos juntos por uma qualquer espécie de bondade e por um laço raro de confiança. mas quando ele morreu, pensei que ia morrer também. de uma atroz solidão.

nunca mais corri, faltava-me força, física, anímica. tinha tonturas que me faziam recear sair à rua, ou olhar pela janela. arrastava-me de obrigação em obrigação desesperada com a fome de alegria nos olhos dos meus filhos.
um dia ele decidiu procurar-me. a primeira vez que telefonou, não reconheci a voz. depois, depois gemi a morte e desliguei.

quando aquela amiga me apareceu em pranto porque a filha, um acidente, o medo, se eu podia acompanhá-la, o hospital, se eu podia, eu pude. podemos sempre até ao limite do que tem de ser. e depois a pequena surpresa, ele era o cirurgião.
esperámos duas horas, tempo suficiente para temer muito, e eu, em compassos pequenos, cada vez maiores, temi por ele também. quando apareceu no fundo do corredor, olhos baixos, passos lentos, postura de fadiga, comecei a desejá-lo. naquele momento. que durou o tempo da distância que percorreu até nós.
entregou-nos palavras de conforto e a mim, prazer. prazer que se acentuou com aquela inquietação, quase pânico, quando me olhava.
ele inventou sem jeito uma maneira de me levar com ele. e novamente o fundo do corredor e naquele vão o rosto que eu beijei com vontade.

mas chorava muito ainda, e todos os dias. pelo que não estava preparada. digo-vos que amar muito já era possível, mas que amaria mal. o tempo gaguejava novamente.
foi preciso esperar até depois, pouco depois. que às vezes me parece que foi ontem.

e nós, duraremos quanto tempo? vamos amar-nos o suficiente para uma versão curta?

sexta-feira, março 17, 2006

partíamos para as nossas vidas e de tempos a tempos, em pequenos compassos, pensava em ti, o que farias naquele preciso momento, se alguém te abraçaria e quem, e com quanta doçura, e depois, depois esperava que fosses feliz e tentava ser feliz nos braços que me eram familiares, sabendo que não há gente feliz sem lágrimas.

quarta-feira, março 15, 2006

compreendemos os nossos medos ou convencemo-nos deles?